O caça-sonhos que já não caça sonhos

Tenho um caça-sonhos no varão dos cortinados do meu quarto. Sempre gostei daquela peça feita de pequenas outras peças redondas ali penduradas, com missangassas e penas de animal. Crente ou não no seu significado, lá que é bonita, é. E ali tem estado, todas as noites, o meu caça-sonhos verde tartaruga.

Um fenómeno recente fez-me pensar sobre aquele caça-sonhos e o que ele poderia estar a querer "dizer". Quem mo ofereceu indicou-me que deveria ser borrifado ou apanhar luz do sol para não ficar, de dia para dia, saturado com os sonhos que retira das nossas mentes, todas as noites.

Um destes dias o estore estragou-se e a peça, lá está, ficou sem a luz do sol. E foi também num destes dias que me apercebi do quanto tenho sonhado, o que não era costume, e o quão agitados têm sido os sonhos.

Mais uma vez, crente ou não no seu significado, o que vale é a reflexão. Talvez aquele caça-sonhos esteja só cansado de trabalhar e nunca apanhar sol que o limpe. Tal como nós. Talvez o excesso de foco naquela tarefa tenha feito com que deixasse de "funcionar" até que um raio de sol o atinja. Como nós. Afinal, quantas vezes precisamos de um raio de sol para esquecer as tarefas do dia e começar de novo? Quantas vezes precisamos de nos "limpar" para depois recomeçarmos? Mas quantos de nós nos permitimos "deixar de funcionar" para que seja entendida a necessidade de descanso?

Talvez o caça-sonhos seja só isso mesmo, um caça-sonhos que não aguenta as trapalhices da nossa mente dias e dias a fio sem um pouco de sol que lhe dê uma nova vida. Tal como nós. Mesmo como nós.

 


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