Joana Magalhães

Pestanas que Falam

O bicho papão da mudança

Costuma dizer-se que para educar uma criança, além das coisas óbvias como amor e afeto, é essencial que se lhe dê rotina. Uma hora para acordar, para comer e para dormir. Até a hora do banho é importante. Isto dá estabilidade e segurança à criança, que sabe com o que pode contar e o que a espera em cada dia. Estabilidade emocional e física. E é assim que a criança cresce, aprendendo a gerir a sua rotina diária, mesmo durante a adolescência e depois até ser adulto.

É nesta terceira fase que, normalmente, a vida faz questão de quebrar essa rotina. Porque aparece um emprego novo irrecusável, porque se muda de casa, porque uma relação acaba, porque se perde alguém. Nesta fase combate-se a surpresa do dia-a-dia com a vontade de ter uma estabilidade.

O bicho papão dos adultos é a mudança. A perturbação do que já se sabe que se pode esperar. A perturbação do nosso acordar, comer e voltar a dormir. Espera-se encontrar o ponto de equilíbrio até se pensar “pronto, está bom assim. Para sempre”. O que, inevitavelmente, acaba por se perceber que não existe.

Poderemos pensar no porquê de nos serem feitas rasteiras em cada dia, de quando as coisas parecem equilibrar, aparecer um ponto de desequilíbrio. Poderemos até recusar pontos de instabilidade por medo, receio ou até covardia. Sendo certo que mais tarde aparecerão outros tantos e estaremos constantemente a ser colocados à prova.

No meio disto encontro uma solução: escondermo-nos debaixo dos lençóis como qualquer criança, porque aí o bicho papão não nos apanha. E tudo se faz.


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