José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (178)

Notas Soltas sobre a Imaginária do Mosteiro

No “Apontamento” de Dezembro faltou o título “Notas Soltas sobre S. Jorge e a Batalha”, o que, com certeza, tornou incompreensível a ligação dos versos com o assunto do texto, versos que eram alusivos à maternidade da Santíssima Virgem celebrada na espantosa escultura da Senhora do Ó ou da Expectação que está à entrada da Casa do Capítulo do nosso Mosteiro, e se enquadravam na época natalícia.

Nem sempre os versos, como aconteceu naquele “Apontamento”, têm ligação ao texto, que ora podem ser de ilustração ou complemento, ora doutra natureza como os do presente número do Jornal.

A propósito da Senhora do Ó, lembro que é sempre representada assentando a mão esquerda na barriga de grávida e levantando a direita, ambas numa postura de protecção do feto sagrado, nunca tendo o Menino ao colo que, evidentemente, ainda estava para nascer. E digo isto porque já vi imagens desta invocação em que se incluiu, erradamente, o divino recém-nascido.

O Padre Dr. Jacinto dos Reis, natural do Reguengo do Fetal e figura proeminente da nossa região, investigador de temas religiosos e publicista, no seu estudo de mais de seiscentas páginas “Invocações de Nossa Senhora em Portugal de Aquém e Além-Mar e seu Padroado”, publicado em 1967, (edição da União Gráfica – Lisboa), diz sobre a Senhora do Ó:

“A origem desta singular invocação está na recitação das 7 Antífonas que começam por Ó – Ó Sapientia, Ó Adonai, etc. – nas Vésperas do Ofício Divino, desde 17 até 23 de Dezembro. Esta festa já vem do Concílio de Toledo, realizado no século VII.

Começou com o nome de Anunciação, depois com o nome de Expectação do Parto de Nossa Senhora e, desde há muito, é conhecida por festa de Nossa Senhora do Ó.

Esta invocação está bastante generalizada, sendo orago de mais de uma dezena de igrejas paroquiais e de várias capelas ou ermidas.

(…) Consta que o culto de Nossa Senhora do Ó começou em Portugal, na vila de Torres Novas, tendo a sua imagem sido colocada no altar-mor da igreja de Santa Maria do Castelo. Esta Senhora “também se chamou Nossa Senhora da Almonda”.

Os Portugueses levaram esta devoção para o Brasil, e ainda hoje por lá está bastante arreigada, principalmente na cidade de Olinda, Pernambuco. (…)”.

A escultura do exterior da Casa do Capítulo batalhina, de que publiquei no nº 6 dos Cadernos da Vila Heróica (“Magno”, Leiria, 2001) um breve estudo, para além dos atributos identificativos da sua invocação, reveste-se de outros verdadeiramente singulares como o colar de seis mão espalmadas caindo sobre o peito um tanto desnudado. A figura enverga vestido quatrocentista.

Ora as mãos espalmadas, nas mais antigas tradições mediterrânicas, simbolizam o gesto da contenção e afastamento do mal, símbolo retomado pelos muçulmanos nas suas “mãos de Fátima” (Fátima, aqui, é a princesa filha do Profeta Maomé) e pelos cristãos nas imagens da Senhora do Ó.

É curioso referir que os antigos batentes das portas de entrada nas casas de habitação, neste caso uma mão fechada, não são mais do que vestígios desse símbolo mediterrânico.

A imagem da Batalha, embora passe normalmente despercebida, dadas as suas dimensões, perto de 35 cm de altura, e o local onde se encontra, é uma escultura de grande perfeição, de extremo originalidade e de profundo significado, sendo talvez a mais expressiva da imaginária do Mosteiro. Falta-lhe porém a mão direita, estrago antigo por acção dos homens ou do tempo.

No que publiquei no citado número dos “Cadernos da Vila Heróica” cometi o erro de confundir um rotundo antebraço com o que poderia ser, e também fazia sentido, uma vasilha que estando ao alto era símbolo da vida conteúda. Só depois da réplica que a notável escultora Adália Alberto executou a meu pedido, eu verifiquei o meu erro. Na realidade só muito de perto se dá conta, como a artista observou, de todos os pormenores da imagem. É ela que ilustra este apontamento.

E ao falar de Adália Alberto, hoje nome feito nas Artes, recordo a Escola de Canteiros, onde Mestre Alfredo Neto Ribeiro marcou uma presença inesquecível e deu um marcante contributo à formação duma verdadeira pleíada de artistas em que, além de Adália Alberto, se distinguem Cristina Maria, Maria Esperança Lebre de Matos, Alzira Antunes, António José Moreira, Pedro Coelho Oliveira, entre outros. 

 

Menino Jesus de Globo na mão

 

Nas Tuas mãos está o Mundo. Uma bola para jogar. Se Tu a largas, Menino, onde irá ela parar? E tantas razões que tens para agora mesmo a largar!

 

Com cuidado, meu Menino, leva-a a Teu Pai Celeste, que só Ele a sabe jogar. Olha se a bola estoira, e está mesmo a estoirar, que vai ser de nós sem a bola para morar?  


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