João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

No bosque encantado do Trovante

Uma corrente de música popular que percorre a Europa é aquela que se designa vulgarmente por música celta. Os países e as Regiões da Europa onde esta enraíza são a Irlanda, a Escócia, a Bretanha, a Galiza e Portugal. Entre nós adquiriu o vulto de música trovadoresca, celtismo que tomou a feição de cantigas de jograis e menestréis medievais. Estes poetas tornaram-se, mais tarde, músicos populares cuja função de entreter com violas e alaúdes, iam de terra em terra interpretando o cancioneiro que era mais ao gosto popular. Isto para dizer que o grupo que este mês escolhemos não adotou o nome de Trovante por acaso. Fê-lo com a consciência de abraçar uma herança musical e assim assumir um certo número de referências. E diga-se que o Trovante nunca escondeu quais as fontes donde bebeu.

O principal objetivo do coletivo constituído por João Gil, Artur Costa, Luís e João Nuno Represas, e Manuel Faria, era o de procurar fundir a música tradicional de raiz celta com as sonoridades que na década de setenta do século vinte chegavam do Reino Unido, como por exemplo de Steeleye Span e Lindisfarne, ou mesmo dos Jethro Tull. Mas o jazz também estava presente na sua sonoridade, o que não constituía surpresa, já que alguns dos seus elementos frequentavam o Hot Club Portugal. Assim como o fado que aprenderam a gostar com Xico Viana, filho de Francisco Viana que compôs o Fado Vianinha.

Todo este manancial permitiu desenvolver um som próprio, uma música nova que cresceria paralelamente com a explosão do rock português no início da década de oitenta do século passado. Tão nova que arriscamo-nos afirmar que, no panorama nacional, existe uma música antes e outra depois do Trovante. E o marco que assinala essa passagem é o álbum “Baile no Bosque”, editado em 1981. Produzido por Nuno Rodrigues, o principal mentor da Banda do Casaco, e já com a participação de Fernando Júdice e José Martins, o terceiro disco do Trovante marca uma viragem no rumo do grupo, perdendo o tom político e intervencionista dos primeiros trabalhos, para render homenagem à pura exultação da música.

O disco abre com a festiva “Balada das Sete Saias” que tem um fraseado de piano onde o motivo é jazzístico, a frase é de rock-folk e o tema eminentemente popular. Temos assim o casamento perfeito entre o tema de jazz e o motivo popular, o que é uma constante em temas como “Passagem por Sevilha” ou “Pescaria”.

Já as faixas “Companha”, “Atados e Simples” ou “Outra Margem” estabelecem afinidades a nível da composição com o rock progressivo dos Gentle Giant. A meio do disco, assiste-se à explosão de euforia de “Prima da Chula”, cujo poema tirado de quadras populares e de António Aleixo tem um arranjo musical que muito deve à tradição sertaneja do Brasil. E, no final, há um jogo de palavras na letra “Bichos” que, quase como uma rábula infantil, não tem outro significado além de brincar com as palavras.

Por último, não podemos esquecer a maravilhosa capa do disco da autoria de João Nuno Represas e ilustrada por Fernando Zé, a qual retrata um bosque onde os músicos dão um concerto e com viva alegria espelhada nos rostos, os músicos comungam com a natureza ao ponto de os animais dessa floresta encantada a eles se reunirem. “Baile no Bosque”, o terceiro capítulo da carreira do Trovante, foi na verdade o primeiro de uma história de sucesso ao qual se seguiram “Cais das Colinas”, “Trovante 84”, “Sepes” e “Terra Firme”.

O último álbum de originais recebeu o nome sugestivo de “Um Destes Dias” e viu a luz do dia em 1990. Hoje o Trovante já não grava mais música nova, mas o seu legado é incontornável: para a posteridade ficaram composições como “Molinera”, “Xácara das Bruxas Dançando”, “Fizeram os Dias Assim” ou “Perdidamente”. “Ah, Saudade!”


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