A Opinião de André Loureiro

Presidente do PSD da Batalha

A mulher de César

À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta. Como todos os bons provérbios, este tem um suporte histórico. Refere-se à segunda mulher de Júlio César, Pompeia, de quem se divorciou por suspeitar que ela o traíra, mesmo sem ter provas.

O caso do ex-primeiro ministro José Sócrates e a aparente impunidade que goza em algumas instâncias da justiça e da política, neste particular, aplica-se como uma luva. Nenhum português terá dúvidas que na “Operação Marquês” muitos dos arguidos beneficiaram de vantagens económicas sem justificação e no caso deJosé Sócrates, a quem o Ministério Público imputava 31 crimes, entre os quais corrupção, mesmo depois de despronunciado, o Juiz foi perentório ao afirmar que o ex-governante se tinha “vendido”, sem margem para dúvidas. Todavia, parece que vai a julgamento apenas por crimes de branqueamento e de falsificação de documentos. Coisa sem importância para advogados e acusados que logo clamaram pela inocência e admitem mesmo vir a reclamar uma choruda indemnização do Estado.  

O estranho para todos nós, cidadãos comuns, é observar como será possível que José Sócrates e os seus generosos amigos possam sair impunes de negociatas de milhões à custa do erário público e de troca de influências e favores. Ainda por cima, conhecida a decisão do Juiz, aqueles protagonistas têm o desplante de se vangloriam como cidadãos exemplares e passarem lições de moral para cima dos ingratos portugueses, porque em julgamento estavam além do ilustre governante, os imaculados donos do BES e amigos construtores, que tanto deram à Nação?!

Confesso que este caso e infelizmente outros a diferentes níveis geram em mim um misto de revolta e determinação em combater este descaramento de gozar com aqueles que visionam na vida pública e económica o dever de trabalhar seriamente e a obrigação de servir os outros da melhor forma que soubermos. Porque, meus caros amigos e leitores, do pouco tempo que levo no exercício de funções autárquicas há uma lição que fica para a vida: mais vale um político mediano e honesto, do que grandes vultos da sabedoria e corruptos.

É desta forma simples e muito direta que expresso a minha indignação – que creio partilhada por muitos de vós – relativamente a este triste exemplo de ganância e de falta de vergonha, como em outras situações que são do conhecimento geral, onde se pagam favores, se empregam amigos e familiares com grandes ordenados em empresas construtoras e bancos amigos, e mesmo assim ainda têm a indecência de reclamar um estatuto de elevada moral perante os outros e passeiam-se pela comunicação como arautos da verdade.

Neste caso, o parecer da mulher de César tem também a ver com aquilo que os portugueses esperam do futuro. Ou, enquanto sociedade somos capazes de denunciar esta gente e afastá-los do desempenho de qualquer cargo público, ou corremos o sério risco de continuar a alimentar negócios paralelos e grupos de interesses que atuam como autênticos cataventos, ou ainda, pior, resignamo-nos perante este modelo de democracia assente em organizações secretas e de má memória também na nossa terra, cujo único objetivo é conseguir vantagens e o poder em tudo o que seja instituição de relevo económico, social e político.

Com humildade afirmo que não pretendo ser “a última bolacha do pacote” que muitos dos protagonistas reclamam para si nestas coisas da política, mas tenho a certeza da honestidade do meu trabalho e daqueles que tenho a honra de acompanhar. E isso, meus amigos, representa muito para minha consciência e liberdade de fazer escolhas para o futuro.

 

 


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