Moinho de Vento trava isolamento de famílias e crianças online

Os responsáveis pela Centro Infantil Moinho de vento, gerido pela Associação de Propaganda e Defesa da Região da Batalha, que comemora este mês o 60º aniversário, fazem um balanço positivo do acompanhamento das crianças via Internet, mas também constatam que nada substitui o trabalho presencial

 

Que impacto teve o confinamento de 2020 no Centro Infantil Moinho de Vento?

Válter Silva Pereira, diretor geral da APDRB: Num primeiro momento foi muito evidente uma sensação de incredulidade, pois estava a acontecer algo que nos parecia ficcional e trouxe incerteza e medo. Mas não nos paralisou! A equipa uniu-se e delineou um plano de ação de apoio às famílias. Foi uma decisão muito importante que obrigou a reajustes e aprendizagens, a desenvolver competências, a planear atividades online com as crianças. Por outro lado, a direção da APDRB foi até ao limite das suas possibilidades no valor do desconto nas comparticipações familiares e os pais perceberam e apoiaram-nos.

Qual foi a relação com os pais e crianças?

Edite Rodrigues, diretora técnica da creche: Começámos por aprender a trabalhar com a plataforma do Zoom. E com a ajuda de pais avançámos para o trabalho online com as famílias e crianças. Publicámos histórias que gravámos, fomos para as capoeiras e quintais mostrar os animais, as hortas, os animais de estimação. O importante era chegar às crianças.

Os pais apreciaram muito a nossa dinâmica para que a perda de contacto presencial tivesse o menor impacto possível. Sempre que possível participavam com os filhos.

Cidália Sebastião, diretora pedagógica do pré-escolar: A preocupação com as crianças e com as famílias foi debatida pela equipa do ensino pré-escolar. Em conjunto definimos estratégias para que o afastamento físico e de algumas aprendizagens fosse minimizado. As educadoras de infância criaram mensalmente uma lista de atividades exequíveis em contexto familiar. À semelhança da valência de creche e CATL, as sessões Zoom aconteceram regularmente e a criação dos grupos no Whatsapp de cada sala também foi muito positiva nas partilhas de situações e aproximação às famílias.

Carla Verdasca, diretora técnica do CATL: A equipa procurou realizar o apoio e atividades adequadas às necessidades das crianças e famílias, nomeadamente, apoio nos trabalhos de casa e no estudo de matérias, envio de sugestões de fichas de trabalhos, grupos semanais via Zoom para crianças, famílias e equipa se verem e partilharem de forma descontraída o seu dia-a-dia com e sem angústias, minimizando assim o impacto do distanciamento social.

No período entre o primeiro e o atual confinamento houve alguma normalidade?

Carla Verdasca: A palavra normalidade não se aplica a esse período, houve uma adaptação a novos procedimentos, atividades, vivências, de todas as partes, embora o equilíbrio entre essa adaptação e o bem-estar das crianças e famílias foi sempre a principal preocupação.

Edite Rodrigues: Com a entreajuda e a criatividade das duplas (educadoras e auxiliares) as crianças em sala continuaram a ser muito felizes. As atividades continuaram a ser o mais possível diversificadas, com os mais diversos materiais e texturas e as nossas salas continuaram com os sorrisos/choros e traquinices próprios destas idades.

Quais as maiores dificuldades que sentiram desde março de 2020?

Válter Silva Pereira: Tivemos de fazer muitas alterações nas rotinas, nas entradas e saídas, no layout do centro infantil, na sinalética, no reforço de colaboradores com o apoio do IEFP, salas de isolamento sanitário, separação escrupulosa de grupos, a utilização de equipamentos de proteção individual. A formação sobre A Covid-19 foi importante, tal como a constante articulação com a Autoridade de Saúde Local. Mas um aspeto que não se deve desconsiderar é a dificuldade de comunicar com máscara e qual o impacto que isso poderá estar a ter no desenvolvimento da linguagem das crianças.

E aspetos positivos que, ainda assim, foi possível reter?

Válter Silva Pereira: Curiosamente, sentimos que estamos mais próximos das famílias. Contudo, o mais significativo foi termos mantido a ligação às crianças e estarmos presentes na sua vida. Acrescentaria também a confiança que os pais e a comunidade demonstram pelo trabalho que desenvolvemos. Talvez por isso mantivemos uma lista de espera com significado.

Como correu o acompanhamento não presencial?

Cidália Sebastião: O acompanhamento efetuado no primeiro confinamento foi uma experiência bem-sucedida, no entanto, após ser analisado e avaliado, em diversos órgãos que compõem a instituição achámos que poderíamos fazer ainda melhor. No início do segundo confinamento todas tínhamos muitas informações relativas às famílias, às crianças, às dificuldades dos professores no primeiro ciclo que nos permitiriam uma planificação mais adequada que favorecesse toda a comunidade escolar.

Quais foram as estratégias seguidas para minimizar os efeitos negativos?

Cidália Sebastião: A diversidade de estratégias incluiu atividades formais orientadas para a aprendizagem formal da leitura e da escrita, assim como momentos bastante lúdicos partilhados por todas as valências nas redes sociais. Um confinamento é algo “contranatura”, isto é, é um momento necessário face à gravidade da pandemia que ainda vivemos, mas é simultaneamente contrariar comportamentos e atitudes muito valorizáveis como: partilhar, emprestar, dar, cumprimentar, aproximar, conviver. Esta proximidade é benéfica para todos, especialmente para as crianças [O Moinho de Vento tem crianças com idades entre os quatro meses e 10 anos].

Que atividades fazem?

Cidália Sebastião: Há pais filmam ou fotografam situações engraçadas das crianças junto das galinhas, numa caminhada em família, a queda do primeiro dente, a conquista de andar de bicicleta sem o apoio das pequenas rodas, os fatos de carnaval, uma atividade de culinária. Muitos pais já perceberam a importância da forte ligação que deve existir entre escola e família e enviam-nos registos fotográficos ou vídeos de atividades que as equipas propuseram e que possuem uma intencionalidade educativa. Neste momento, os pais são os aliados mais poderosos com que podemos contar.

Quais são os principais desafios que têm de enfrentar?

Cidália Sebastião:  Existe um desafio que, obrigatoriamente, tem de ser comum a toda a comunidade educativa: consciencialização da gravidade desta pandemia e não descurar os principais cuidados. As crianças são afetuosas, adoram demonstrar o carinho que têm por quem as rodeia, amigos e adultos de referência da sala, e neste momento os “beijos e abraços” são comportamentos a evitar. Também a partilha de brinquedos é minimizada assim como vedada a entrada de objetos desnecessários vindos de casa. Após o confinamento anterior cada criança apenas pode relacionar-se/conviver com as crianças do seu grupo. No caso dos educadores e outros colaboradores do centro infantil, manter o rigor e a exigência estabelecidos, nomeadamente a utilização do equipamento de proteção individual, exigência com as crianças, no desfasamento de horários e rotinas dos grupos. Manter os circuitos definidos para os fornecedores e proceder à desinfeção/higienização de tudo o que é possível.

Ana Santos, mãe: O maior desafio para os pais é conciliar o apoio aos filhos com a vida profissional. Nem todas as famílias possuem os mesmos recursos económicos e/ou ajudas. Muitas vezes são “forçados” a fazer opções em relação a quem têm de acompanhar, o filho A ou o filho B. Estas decisões serão sempre respeitadas sem qualquer juízo de valor pois é frequente famílias terem um filho em creche e outro em pré-escolar ou um em pré-escolar e outro em CATL o que gera sobreposição de horários. É também evidente a preocupação dos pais em auxiliar a comunidade educativa no objetivo comum de tentar facilitar a adaptação dos seus filhos a esta “nova normalidade”. É preciso consciencializar as crianças de que há novas regras que fazem agora parte do seu dia-a-dia.

Carla Verdasca: No CATL, o principal desafio das crianças é estarem fechadas em casa, para os pais é acompanharem as aulas online e tudo o que envolve o ensino e para a equipa é não poder proporcionar atividades e aprendizagens espontâneas e em grupo.

Edite Rodrigues: Para as crianças o maior desafio é não poderem brincar à vontade sem cuidado com isto ou com aquilo. Para os educadores o desafio é terem de usar todo o dia uma máscara, cuidar e fazer cumprir todas as regras da DGS.

Ana Santos: Não poder contactar diariamente com quem passa mais tempo com os seus filhos, acaba por distanciar os pais da vida escolar e só uma estreita articulação por outras vias entre a escola e os pais, consegue minimizar o impacto deste distanciamento.

O acompanhamento à distância superou as expetativas por quê?

Válter Silva Pereira: Quando iniciamos esta cruzada o objetivo era lutar contra o isolamento social das crianças e, nesse particular, as evidências têm sido muito positivas. Por outro lado, crescemos enquanto equipa, desenvolvemos competências e melhoramos a qualidade da relação que estabelecemos com as famílias.

O que fazem as crianças em concreto?

Carla Verdasca: Do CATL, um exemplo é o apoio, à distância, nos trabalhos escolares.

Cidália Sebastião: O ensino pré-escolar além de propostas livres ou mais orientadas, mantêm via Zoom as sessões de treino de competências, música e inglês.

Edite Rodrigues: As crianças da faixa etária de creche desenvolvem as suas competências brincando; através do desenvolvimento dos sentidos, agarrar/tocar, cheirar, ouvir e provar são todas as formas que estas crianças interagem com o ambiente que os envolve.

No contexto da pandemia, como tem sido o acompanhamento presencial?

Carla Verdasca: Com as crianças do 1º ciclo, o dia-a-dia requer alguns procedimentos, mas onde as crianças colaboram, valorizam e acabam por ser bastante responsáveis com os seus cuidados, mas também com os dos outros. São atentos e compreendem a realidade que todo o mundo está a viver.

Edite Rodrigues: Tivemos que ter alguns procedimentos que até então não eram necessários e tendo a tenra idade das crianças desta faixa etária, o adulto é que tem que as fazer e estar atento a todas as regras da DGS. As crianças aceitam e colaboram sem questionar, pois são pensadas com responsabilidade, mas no seguimento de uma brincadeira. Aos mais crescidos já são explicados os procedimentos e vão compreendendo que ações como ver a febre, trocar os sapatos e afins são para os proteger do vírus.

Quantas crianças andam no Moinho de Vento e quantos profissionais se ocupam delas?

Válter Silva Pereira: Temos 151 crianças (116 do oncelho da Batalha, 22 do concelho de Porto de Mós e 11 do concelho de Leiria). Contamos com 32 colaboradores internos - nesta fase - e com 10 colaboradores externos das áreas pedagógica e da saúde.

 

“São 60 anos ao serviço da região, da nossa terra e isso é um motivo de orgulho”

 

A APDRB nasceu a 31 de março de 1961. Qual é, para si, a importância desta data?

Nuno Costa Santos, presidente da direção da APDRB: É sempre um marco importante na vida de uma associação celebrar as bodas de diamante. No nosso caso, significa que são 60 anos ao serviço da região, da nossa terra e isso é um motivo de orgulho para os associados e os elementos dos órgãos sociais. Quanto ao segredo da nossa longevidade, penso que decorre do facto de darmos uma resposta nos planos cultural e social muito importantes que vão ao encontro das necessidades da comunidade.

Quais os projetos mais importantes que desenvolve?

Nuno Costa Santos: O projeto mais visível é o Centro Infantil Moinho de Vento. Contudo prestamos apoio alimentar a famílias carenciadas no concelho e fazemos questão de continuar com as iniciativas de natureza cultural que sempre foram um traço da nossa identidade. Os novos projetos que queremos levar a cabo situam-se no nosso espaço natural: educação, cultura e apoio social.

Quais são as principais dificuldades que a associação enfrenta?

Nuno Costa Santos: As nossas dificuldades estão, essencialmente, relacionadas com a nossa necessidade de crescimento. Precisamos de encontrar a melhor forma de crescer e contar com os apoios que, estou certo, merecemos. A nossa região precisa de nós.

Como vai a associação comemorar o aniversário?

Nuno Costa Santos: A APDRB tinha previsto um conjunto de iniciativas que podem estar comprometidas. Não sabemos como será a evolução da pandemia e em função disso veremos se a comemoração será mais presencial ou menos presencial. Todavia, será sempre próxima da comunidade e ao serviço da região da Batalha.

Quais são os momentos mais importantes que recorda da APDRB?

Luís Tomás Oliveira, um dos sócios fundadores e atual associado nº1: A aprovação dos estatutos, em 31 de maio de 1961, a cedência pelo município de “sala” para o funcionamento da APDRB, integração da Comissão das Festas da Batalha; 1ª Exposição Bibliográfica e Iconográfica do Concelho da Batalha, colóquios e palestras, concerto pela Orquestra Gulbenkian, serões de música e poesia, concertos de Música Sinfónica, verbenas nos Santos Populares, encontros festivos entre sócios e famílias, Escola de Música e Orquestra Típica e Coral, colaboração com o Centro do Património da Estremadura e o Festival Internacional de Cinema e Filme Histórico da Batalha, entre muitas outras ações e projetos.

O que tem de fazer a associação para assumir um papel mais relevante no concelho?

Luís Tomás Oliveira: A APDRB foi, durante muitos anos, considerada uma instituição tão importante, pela  sua atividade em prol do concelho, que tinha a honra de fazer parte da lista protocolar do Município da Batalha e era sempre convidada para as cerimónias, sessões ou quaisquer outros atos promovidas pela edilidade. Há em quase todos os “lugares” e sedes de freguesia associações recreativas que têm os seus programas próprios, quase todos financiados pelas autarquias locais (juntas) ou pelo município. Só com elementos concretos e em reuniões com os interessados nos poderíamos pronunciar.

 

 


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