João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Mistérios da estrada dos Tantra

O grupo musical Tantra foi buscar o seu nome aos livros sobre rituais do culto das religiões indianas e a sua inspiração ao rock progressivo inglês, muito em voga na década de setenta do século passado. Mas também não descartou a influência das sagas heróicas e das lendas fabulosas da literatura fantástica, mormente da saga de O Senhor dos Anéis, escrita por J. R. R. Tolkien. Não foi por acaso que o vocalista dos Tantra, Manuel Cardoso, adotou Frodo como nome artístico, à semelhança do protagonista de O Senhor dos Anéis.

Mas a grande referência desta grande banda é o rock sinfónico, não lhe sendo estranhos mega grupos como os Genesis, os Yes, Jethro Tull ou os Emerson, Lake & Palmer. Por isso, desde o momento da sua formação, em 1977, os Tantra tiveram a ambição de se tornar o primeiro projeto do rock português a trilhar a estrada do profissionalismo, inclusivamente tendo atuado no Coliseu dos Recreios, facto praticamente inédito na época para um grupo de música moderna portuguesa. Esta experiência no Coliseu foi acompanhada por toda uma produção sofisticada e uma encenação teatral que muito devia a Peter Gabriel e aos seus companheiros nos Genesis.

Não podemos esquecer a carga emotiva desta música que tanto evocava as filosofias orientais, como o universo pós apocalíptico de À Beira do Fim, patente no álbum Mistérios e Maravilhas, o seu trabalho de estreia discográfica datado de 1977. À semelhança do que iríamos encontrar no álbum de José Cid, Dez Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte, editado em 1978, Mistérios e Maravilhas também revela um universo fantástico que vai do pesadelo apocalíptico até à reflexão sobre o infinito do cosmos, como em Variações sobre uma Galáxia.

Mistérios e Maravilhas é riquíssimo em termos musicais. Podemos encontrar, neste trabalho maioritariamente instrumental, trechos que são tão geniais quanto a melhor música improvisada. Isto porque os músicos que integravam os Tantra eram verdadeiros virtuosos em termos técnicos, obreiros de sons que teceram uma obra absolutamente visionária, que permanece um marco na história do rock português.

Muito antes de Rui Veloso e da explosão do rock que aconteceu no dealbar do início da década de oitenta do século XX, houve a Banda do Casaco, Petrus Castrus e José Cid. E houve os Tantra, numa década que iria assistir no Reino Unido ao aparecimento do chamado Punk, liderado pelos Sex Pistols e The Clash.

Não obstante, a nível internacional, o estilo progressivo sobreviveria nas décadas seguintes do século XX com o aparecimento de grupos como os Marillion ou os IQ, chegando até hoje (já em pleno século XXI) e dando cartas, para mostrar que está bem vivo como provam os últimos álbuns dos Big Big Train, This Winter Machine ou o recente trabalho de Steve Hackett, intitulado At the Edge of Light.

Portanto, os Tantra acabam por tornar-se num grupo embrionário de todo um movimento que, nos nossos dias, adquiriu novo alento.

Uma palavra final para os músicos que integravam este conjunto extraordinário, cuja formação era constituída por Américo Luís (na guitarra baixo), Manuel Cardoso, mais conhecido por Frodo (na voz), Armando Gama (nos teclados) e Tozé Almeida (na bateria). Em 1978, Pedro Luís substitui Armando Gama nas teclas, quando este último sai para dedicar-se a uma carreira a solo. Em 1980, António José Almeida (mais conhecido por Dedos Tubarão), entraria para a banda, isto antes de integrar os Heróis do Mar. Em 1981, o projeto chegaria ao fim, mas Frodo em 1988 regressaria com outros músicos para dar nova vida aos Tantra.


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