Joana Magalhães

Pestanas que falam

A minha amiga e o nosso quarto

Nunca dividi quarto. Essas quatro paredes onde passamos metade do dia sempre foram “só minhas”. Até agora. Agora, esse espaço é meu e de outra pessoa. Uma amiga.

As circunstâncias que nos levaram a tomar a decisão de partilharmos esse espaço privado foram, nada mais, nada menos, do que questões monetárias. Arrendar quarto em Lisboa a preços praticáveis é quase impossível e, numa fase da nossa vida em que começamos a olhar para o dinheiro como algo com a importância que tem, a solução foi esta.

Partilhar quarto significa partilhar tudo. Não se partilha só o mesmo espaço mas partilha-se toda a vida. Partilham-se as insónias, os “bichos-carpinteiros”, os sonhos, as doenças, as tristezas e, claro, as alegrias. Também se partilha o cansaço, as frustrações e tudo o que nos invade a cabeça na hora de dormir. Mas partilhar o quarto é muito mais do que isso. É entendermos que a pessoa que dorme na cama ao lado nunca vai ser igual a nós. Por isso, nunca vai ter os nossos hábitos, os nossos horários. E, na realidade, porque haveríamos de querer isso?

Dividir quarto é uma aprendizagem constante, diária, que nos faz pensar que há muito mais na vida do que aquilo que nós achamos que está certo ou errado, porque o outro pode sempre ter uma perspetiva diferente. E essa é a riqueza de partilhar esse espaço privado com alguém.

Quando se partilha o quarto sabemos o estado de espírito de quem está ao nosso lado, porque, espíritos à parte, quase que se sente no ar. E partilhando-o com uma amiga, aliás, com A amiga, a tal amiga “de todas as horas” que agora o é, de facto, em todos os momentos do dia, ainda intensifica mais isso.

Desenganem-se se pensam que poderiam dividir o quarto com qualquer pessoa. Se não é para dividir o quarto com o nosso parceiro então que o seja com uma grande amiga, com alguém a quem se possa confiar os nossos medos, aqueles que só chegam na hora de dormir. Toda a gente deveria dividir quarto com uma amiga(o) pelo menos uma vez na vida.

Fomentar a amizade e, acima de tudo, perceber se aquela amizade tem algo de realmente diferente, porque, se não, como teriam paciência uma para a outra? Desenganem-se também se pensam que a vossa maneira de fazer as coisas vai permanecer sempre igual. Não vai. E partilhar quarto também é isso, é adaptarmo-nos a quem está ao nosso lado e vice-versa.

A minha colega de quarto é a minha melhor amiga, e quando as quatro paredes voltarem a ser minhas, vou ter saudades que ela me tire o sono.


NESTA SECÇÃO

#Metadiscussão #PinhaldoPovo #IniciativaCidada

As nossas redes sociais funcionam um pouco em favor das estações: da Primavera da Eurovisão,...

Vamos aos fados com Ana Moura

Desconhece-se qual a origem do fado: há quem diga que teve origem no lundum, uma dança brasi...

Carta de Maputo

Este mês recebi uma carta de Maputo, vinda de um correspondente do Jornal Noctívago. Pelo qu...