Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

Memórias venezianas

Escrevo estes contos e crónicas sem ver os leitores que contemplam as minhas palavras. Dentro da aura feérica que crio e a realidade que tento abordar, vai um passo monumental de distância. Se a escrita não alcançar o humor, a melancolia e todas as cambiantes do ser humano, então não vale a pena perder a tinta da minha caneta.

A narrativa que hoje me proponho a relatar tem como pano de fundo Veneza, a cidade imaginária, que vive entre o sonho e a realidade.

Um rapaz ia trabalhar quase todos os dias para a Coleção Peggy Guggenheim, templo maior da arte moderna. Ele convivia com Wassily Kandinsky, Pablo Picasso, Robert Delaunay e Joan Miró, seus amigos de longa data. Também estabeleceu boas relações com Alexander Calder, Jackson Pollock e Marcel Duchamp, que lhe ensinaram muito. O que é certo é que na maior parte dos dias, a seguir ao fecho de portas do museu, partiam à descoberta do melhor spritz Campari que havia em Veneza. Os bares já conheciam este grupo eclético, abrindo as portas de par em par para os receber condignamente. Depois de uma noite longa e intemporal, por entre conversas e confissões, o jovem historiador regressava a casa, não muito distante da Ponte do Rialto, famosa pelas suas lojas turísticas. Os monumentos convidavam a entrar num mundo infinitamente magistral, de contornos prodigiosos, moradas finais de Claudio Monteverdi ou Ticiano, como é o caso da Basílica de Santa Maria Gloriosa dei Frari.

O rapaz via passar pelas intrincadas ruas estreitas vultos de suma importância mundial. Lado a lado passeavam Francesco Geminiani e Joseph Brodsky, mestres que se apaixonaram pela paisagem daquela antiga poderosa republica da Península Itálica. Nada mudou na arquitetura, gestos e hábitos da civilização veneziana desde o Renascimento. O nevoeiro trazia uma sombra sobre o período histórico em que nos encontrávamos.

Esse deslumbrado português desconhecido que habitava em Veneza era eu. A cartografia e beleza da ilha em forma de peixe chega a ser tão perfeita, que nos faz duvidar que seja vera a sua existência. Ao regressar ao nosso país, fico a pensar se era um lugar real, ou um mero devaneio de poeta. Hoje, após uns meses da minha presença naquele idílio, percebo que preciso de regressar lá, só para ter a certeza que ainda flutua à vista do nosso olhar cinzento, turvado pela fraca luz do quotidiano.

Esse é o papel dos meus contos, tornar o mundo um pouco mais veneziano.

 

“Julgo que foi o Hazlitt quem disse que, superior a esta cidade de água (Veneza), só mesmo uma cidade construída no ar. Era uma ideia calviniana, e quem sabe se, na esteira das viagens espaciais, não virá ainda a ser posta em prática. Enquanto isso não acontece, talvez o melhor testemunho deste século, a par do desembarque na Lua, seja o ter deixado intacta esta cidade, o tê-la deixado em paz.”

 

Joseph Brodsky

In Marca de Água

Relógio D´Água Editores, 2018

 


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