João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Maria de Lourdes Resende: a rainha da rádio

Muito antes das redes sociais e da Internet, anterior à Televisão, houve a Rádio que cumpriu durante quase um século (e continua a cumprir) as funções de informação, cultura e entretenimento. Vencendo as distâncias e narrando os acontecimentos em direto, tornou-se num importante veículo de comunicação, rivalizando com a imprensa escrita.

Em Portugal, primeiro com a Sociedade Portuguesa de Amadores de Telefonia sem Fio, depois com a criação da Emissora Nacional de Radiodifusão em 1935, começaram a ser transmitidos programas que divulgavam discos e artistas amadores. Mas depressa esses artistas tornaram-se profissionais, tendo ao seu serviço orquestras que ajudavam a divulgar a boa música. Alguns cançonetistas tornaram-se muito respeitados.

Nos meados do século XX houve vários que, com o seu desempenho em programas de variedades, ficaram na memória da Rádio. Tony de Matos, Artur Ribeiro, Tristão da Silva, Ana Maria, Francisco José, são alguns dos nomes que se associam às primeiras décadas da Rádio em Portugal.

E uma das mais populares cantoras do seu tempo foi, sem qualquer dúvida, Maria de Lourdes Resende. Nascida em 1927, a sua carreira ao serviço da Rádio começou em 1945, quando se deslocou a Lisboa e fez audições na Emissora Nacional. Estreando-se aos microfones daquela estação, alcançou um êxito tão fulgurante que, cinco anos depois, deslocava-se a Paris e em 1952 estava já a atuar no Brasil.

Porém, a sua coroa de glória foi granjeada graças à Orquestra Típica da Emissora Nacional, dirigida então pelo maestro Belo Marques. Este tinha composto uma série de canções onde se destacavam Feia, Mulher Pequenina e, principalmente, aquela que se converteria num sucesso que pôs todo o país a cantarolar: Alcobaça.

Em 1955, o álbum 8 Canções por Maria de Lourdes Resende, acompanhada pela Orquestra Típica de Belo Marques, torna-se no primeiro disco de estúdio de um artista português com selo fonográfico nacional. Por isso, sendo um registo histórico, hoje é peça de coleção.

Nesse mesmo ano, a revista Flama elege-a como rainha da rádio, na sequência de um concurso de popularidade. Sete anos depois, revalidaria esse título. Contudo, o ano de 1962 ficaria marcado por haver sido distinguida pelo Prémio Bordalo, entregue pela Casa da Imprensa.

Senhora de uma voz límpida, com uma interpretação sentida e emocionada, gravou grandes êxitos tais como Moleirinha (um poema de Guerra Junqueiro), Canção das Praias, Não, Não e Não, Contra a Maré, Passagens Desta Vida ou Avozinha. Em 1967 consegue o terceiro lugar no Festival da Canção com Não Quero o Mundo, outro tema que rapidamente se converteu num clássico do seu reportório.

Três anos depois, a intérprete empresta a voz a um conjunto de músicas compostas por António Vitorino d’Almeida e textos de Natália Correia, na peça Um Chapéu de Palha de Itália, levada à cena pelo Teatro Experimental de Cascais. Contracena aqui com nomes maiores do teatro como são Mário Viegas ou Maria do Céu Guerra. O acervo discográfico da cantora conta com mais de duzentos temas gravados. Fato que torna incompreensível a ausência dos seus discos nos escaparates, sendo urgente a sua reedição, pela importância que a cantora tem na História da Música Ligeira e na Rádio em Portugal.

Como referência maior que é, Maria de Lourdes Resende foi distinguida com a Medalha de Ouro do Barreiro, município onde nasceu. E quando completou os cinquenta anos de carreira, foi homenageada em Alcobaça, cidade onde encontramos uma das principais ruas com o seu nome.


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