José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (208)

Manifestações da cultura popular em actos religiosos

Padre António Vieira

 

Voz

que se levanta

solitária

e investe

destemida,

solidária com a Humanidade oprimida,

contra todo um mundo adverso.

Voz da invenção da modernidade,

humanista, humanitária,

que nela ganha o verbo

da estatura do Homem,

dimensão do Universo.

Voz de Portugal cativo,

da esperança do reino restaurado.

Voz dos dois impérios,

um irreal mas desejado

de um príncipe português rei universal,

outro real e de incomensurável grandeza:

António Vieira, ele próprio imperador,

como o proclama Fernando Pessoa,

da Madre Língua Portuguesa.

 

 

Como já em tempos disse aos prezados leitores, nem sempre os meus versos, a encabeçar os “Apontamentos”, correspondem ao tema da secção, como se verifica mais uma vez e hoje com a intenção de facilitar a paginação.

O tema escolhido reveste-se de grande interesse e por isso mesmo a exigir uma averiguação mais profunda. Para o desenvolver servi-me particularmente da notável obra do Dr. José Alberto Sardinha, o maior etnomusicólogo português da actualidade “Danças Populares no Corpus Christi de Penafiel”, publicada em 2012 pela “Tradisom”, de onde, com a devida vénia, recorto uma das fotografias. Mas também fui buscar ao nosso “Couseiro” uma preciosa informação: a da participação de músicos negros na procissão leiriense.

Só no concelho da Batalha, há três grandes manifestações da Cultura Popular em actos religiosos, o que, longe de lhe diminuir o mérito ou de desilustrar o cerimonial religioso antes lhe acrescenta a espontaneidade e uma sentida participação do Povo.

Trata-se da Santíssima Trindade na Batalha, da Festa em honra de Nossa Senhora do Fetal no Reguengo e da Encamisada, círio a Santo António na Rebolaria, a que podemos ainda acrescentar os Cânticos da Quaresma um pouco por todo o Concelho.

Na Santíssima Trindade o Povo manifesta a sua fé através duma arte que bem reflecte a beleza do seu espírito: as ofertas extremamente originais em que transporta os não menos originais bolos de ferradura. Na Senhora do Fetal, no Reguengo, aquele artístico mar de luz, em que nenhum reguenguense deixa de participar, que invade a histórica povoação naquela miríade de conchas de caracóis transformadas em lucernas, e noutra das festas grandes da sua paróquia, a do Espírito Santo, as suas ofertas que marcam pela diferença das outras da região, e na singular evocação, um tanto de cunho lendário mas muito bela, de Santo António na Rebolaria, a reminiscência dos círios estremenhos, neste caso a “encamisada”, que nos indica ser manifestação nocturna, com os seus anjos a deitar as loas ao taumaturgo do altos dos seus burritos brancos, com a povoação também iluminada pelas mesmas candeias medievais: as conchas dos caracóis.

Surpresa possivelmente para os leitores será a procissão do Corpo de Deus, em geral e em particular a de Leiria, a que “O Couseiro” faz a seguinte referência: “Ordem na Procissão do Corpo de Deus antes da Invasão (invasão dos franceses):

“Alguns pretos, vestidos com saltimbarcas encarnadas (vestuário aberto dos lados), tocando trombetas e clarins. Dois mordomos de S. Jorge, vestidos de capa e volta com suas varas na mão (normalmente eram os ferradores que costumavam levar a imagem de S. Jorge). O alferes de S. Jorge, a que chamam homem de armas, a cavalo e vestido de armas brancas, levando na mão direita o estandarte e bandeira de S. Jorge. Alguns cavalos, formando uma só fileira. Alguns pretos formando segundo coro e todos tocando instrumentos…”.

Era para a composição desta procissão mor da Igreja, que a partir de certa altura teve, em Leiria e em todo o País, a participação como músicos e como bailadores, em que eram exímios, as pessoas de cor, provavelmente antigos escravos já libertos, bem como participação de variadas profissões, como a citada dos ferradores, dos ferreiros, dos pedreiros, dos sapateiros, dos carpinteiros, dos tecelões e tecedeiras e doutras. Havia bailes (danças) próprias para cada corporação profissional e ainda bailes (danças) dos paus, dos turcos, dos pauzinhos, etc.. O povo dançava modas apropriadas mas de recorte popular, tocava vários instrumentos com a mesma origem e cantava. Dançavam-se chacotas, mouriscas, lunduns, entre outras danças e é curioso verificar que em 1602 foi uma chacota, aqui significando o grupo que interpretava este baile, participar na Procissão do Corpo de Cristo, que a Companhia de Jesus, realizou em Lisboa, com a curiosidade da chacota (dança e grupo de dançadores) ter ido expressamente Leiria (?!).

 

 

Faleceu o professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão

 

Estava a finalizar o apontamento sobre as manifestações da Cultura Popular quando recebi a triste notícia do falecimento do notável Historiador e Pensador Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, pelo que deixei a conclusão do artigo para o próximo número.

Figura maior da Cultura portuguesa no século XX e nos princípios deste século, deixou uma obra vasta e profundamente marcante de que se destaca a “História de Portugal” em dezanove volumes, bem mais de dez mil páginas produto duma investigação laboriosa, feita com extrema originalidade e inexcedível rigor, “Historiagrafia Portuguesa”, “Portugal no Mundo nos Séculos XII a XVI”, “A Essência e o Destino de Portugal”, entre muitos outros estudos pautados pela exactidão, pela vastidão dos seus conhecimentos, pela elevação e pela qualidade literária.

Foi brilhante Presidente da Academia Portuguesa de História, onde tive a honra de ascender pela sua mão e de que sou membro supranumerário. À Batalha veio diversas vezes, em 2001 e 2002, a convite do então Presidente da Câmara, António Lucas, e participou nas duas Jornadas da História da Vila da Batalha que, se pode dizer, apadrinhou e estimulou.

Faleceu na cidade onde nasceu há 95 anos, Santarém, onde já tem um expressivo monumento a evocá-lo e a homenageá-lo.

Os mais sentidos pêsames a seu filho Dr. Vítor Serrão, outro vulto eminente da intelectualidade portuguesa, e à restante família.

Se Deus quiser, no próximo número continuarei a evocar esta figura ímpar da nossa Cultura.


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