Francisco André Santos

Diacrónicas

A lua é minha amiga

Um dia olhei pela minha janela. Eram 6 da tarde. A lua, como sol, surgindo por de trás da verticalidade da cidade, descreveu uma trajetória na horizontal por entre a moldura. Pareceu estar a pedir-me para acordar. Outra vez depois de um turno, com o corpo a ressentir. Passar uma série de turnos a trabalhar à noite consegue pesar no corpo, mesmo quando se adota outro ritmo.

Quando falei aos meus amigos em Portugal de que era guarda-noturno, olharam-me de alto a baixo e exclamaram: “ó Xiquinho, tu!?” Do meu pouco mais de metro e meio, enuncio as minhas principais tarefas que são limpar e abrir a porta a hospedes embriagados. Estes teimam em não perceber como usar o cartão eletrónico para entrar no hostel. Se bem que o trabalho em si não tem muita dificuldade, um dos hospedes já teve de acabar em algemas e eu confesso que posso contar com o apoio do segurança do bar ao lado. Não sendo Amesterdão, trabalhar no meio da noite de Roterdão, vejo de tudo com uma sobriedade pouco invejável. Começo com um expresso duplo a compensar o cheiro de cerveja entornada.

Ao longo da noite, mantenho esse passatempo de colecionar personagens. Algumas mais permanentes que outras. Penso nestas melhores pessoas como as que passam duas horas a conversar comigo num turno. O tópico é livre, e se bem que ainda consigo puxar o assunto para a política, é mais comum falarmos de onde vimos, onde estamos e para onde vamos. Por volta das 4, no outro dia, sou interpelado com “um homem a ler um livro é tããão sexy.” Hoje de manhã, um Novo-Zelandês a viver no Reino Unido confessa-se perdido após ser despedido do seu emprego de 20 anos. Espero que encontre o seu caminho. Um Letão, um pouco mais novo do que eu, está desagradado com as suas escolhas. Felizmente, devolvi-lhe a coragem para que pedisse aos pais uma outra oportunidade para estudar. Disse-me com um sorriso noutro dia, que se não conseguir, terá que lhes pagar o dobro.

Passam diferentes grupos de pessoas. Até às 2, os estudantes afetados pela bolha imobiliária, estudam. Antes disso, os estudantes mais novos, em visita de estudo, salvo um ou outro que sai para um cigarro, já estão a dormir. A malta que vem em trabalho, como para o festival de cinema, não costuma ver filmes para além das 3. Entre as 4 e as 6, entram aqueles que vêm em grupo, para despedidas de solteiro e afins, e vão dormir. Novamente, à exceção dos aventureiros ou aquele tipo que se borrou e ficou-se pelo corredor. Entretanto, chega o senhor da lavandaria ou a senhora dos bolos. Até às 8, aparecem os que têm que apanhar o comboio ou o avião, ou a colega que trata do pequeno-almoço. Por esta hora, qualquer sem abrigo já arranjou um refúgio ou canto.

E entretanto, realizo algo fenomenal. Quando estamos tristes e encontramos alguém ainda mais triste, parece que nos alegramos. É nesses parágrafos que entregamos a nossa motivação e como que por surpresa, desenvolve-se outra perspetiva. As nossas nuvens escondem um céu. Podemos até nos concentrar nelas, mas quando o panorama se estende com as nuvens dos outros, aí, enquadramos um céu de possibilidades entre os problemas.

A minha cabeça fica ocupada com o que perdi durante o dia e deixo de conseguir usar as horas mais monótonas. Por exemplo, aquele jantar que se evita para dormir antes do turno; o trocar das refeições; a falta de sol; o sair da festa antes da meia-noite, qual Cinderela; ou o mal dormir. Trabalhar por turnos, em particular à noite, gasta mais tempo do que se imagina. Mas para ajudar, fiz uma amiga que está sempre presente e me ajuda a compensar essa falta de luz, que me mostra o lado certo da noite. Brilha, e muda todos os dias mas reflete sempre o sol e conhece o horizonte. Por de trás das nuvens, a lua é minha amiga. Enquadra uma galáxia de personagens e histórias e eu conheço-lhe a trajetória, e ela, ela sabe para onde vou.

 


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