José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (197)

Jogos tradicionais do povo (III)

Antes de me referir ao jogo escolhido para este número, o Jogo do Pau, regresso ao Jogo do Mioto para anotar que tendo os jogos recolhidos na Maceirinha (Maceira, Leiria), e em Serpa, a característica de serem acompanhados de diálogo travado entre a mãe da ninhada (galinha, perdiz, etc.) e o milhafre, na recolha feita na Torre da Magueixa não o obtivemos ou porque não o tinha ou porque dele se esqueceu o Mestre António Pereira Marques de no-lo transmitir.

Posto isto, eis a nossa secular arte marcial, o Jogo do Pau, possivelmente tão velha como a nossa Nacionalidade e uma das manifestações mais originais do Povo Português, tão original que a poderemos considerar única, pelo menos na Europa, o que me leva a insistir na proposta de classificação como património imaterial da Humanidade.

A origem perde-se no tempo e as informações sobre ela são escassas, pelo menos até ao século XVIII, o que é natural por se tratar de um jogo (arte ou esgrima) próprio do povo humilde das aldeias, que só no século XIX, por acção do José Maria Silveira, conhecido pelo Saloio, ganha um novo estatuto ao ser introduzido nos meios desportivos de Lisboa. Também têm sido poucos os estudos que se lhe referem, sendo de destacar a obra “O JOGO DO PAU” de Frederico Hopffer.

No século XIX acentuam-se e cultivam-se as diferenças entre as províncias onde esta esgrima de varapaus se mantivera ou onde ganhara novos alentos, criando-se escolas e instalando-as em instituições de prestígio como o Ginásio Clube Português, o Lisboa Ginásio Clube ou a Casa Pia (onde tem pontificado o Mestre Russo), isto no caso de Lisboa. Há várias associações onde se pratica no Norte.

Duma maneira geral o Jogo do Pau praticava-se em todo o espaço continental do nosso País e, pelo menos, na Ilha Terceira nos Açores, mas sobressaem, presentemente, três regiões demarcadas, chamemos-lhe assim: a do Norte, minhota mas estendendo-se a Trás-os-Montes e inclusivamente à raia galega, a do Ribatejo, ribatejana ou pataieira, e a de Lisboa, saloia ou estremenha, em que se insere a nossa Alta Estremadura. Isto, porém, não quer dizer que a nossa velha arte marcial esteja esquecida noutras províncias ou espaços nacionais. Sei, por informação do Dr. Adélio Amaro, aturado investigador da nossa Cultura, que na Ilha Terceira há em funcionamento uma “oficina” do Jogo no Museu Militar, tendo sido publicado, nesta formosíssima Ilha onde as Tradições são plenamente revividas, um valioso livro sobre o assunto, “O Jogo do Pau na Terceira” (edição de 1992 apoiada pela Câmara de Angra do Heroísmo) de Paulo de Ávila de Melo. Do Algarve também tenho notícias sobre a existência de praticantes da modalidade, faltando-me, porém, apurar se têm “escola” própria ou se inserem noutra que seria, talvez, a de Lisboa.

Na nossa região a sobrevivência do Jogo do Pau deve-se ao Rancho Folclórico Rosas do Lena, da Rebolaria, que ante o facto dos nossos velhos jogadores já terem desaparecido do número dos vivos ou se encontrarem incapazes de o transmitir, isto na década de 70 do século XX, foi reaprender a surpreendente esgrima na escola do Mestre Nuno Russo da Casa Pia de Lisboa.

Na primeira lição do Jogo do Pau aprende-se a escolher o varapau que se adeque à altura do praticante, desde o chão até ao lábio superior, evidentemente a madeira de que é feito sendo considerada a do lódão a melhor, na falta desta a de carvalho, de marmeleiro e inclusivamente a de eucalipto de recente usança. O varapau tem de ser cuidadosamente alisado e ter o mesmo diâmetro de ponta à ponta. Para se manter macia e resistente de forma a não se quebrar, sobretudo a madeira de eucalipto, deve ficar algumas horas, antes de cada jogo, de molho.

A forma de pegar o varapau constitui a segunda lição, sempre no extremo e não a meio. Pegado a meio ou com as mãos muito avançadas, a derrota do jogador é pronta e dolorosa.

A maneira de colocar os pés assemelha-se à da esgrima das armas brancas, mantendo-se os passos curtos e firmes nas diversas posições.

Nas primeiras aulas é isto que tem de aprender: a postura do corpo, o jogo dos pés, a firmeza dos passos, a atenção concentrada no adversário, a escolha do varapau, a forma de o pegar, nada que desvie a atenção, o respeito pelas regras. A existência de público a assistir, o que é normal nas exibições do Rosas do Lena, torna frequentemente difícil concentrar a atenção, o que só se consegue com muito treino.

Segue-se a aprendizagem das várias posições e das pancadas, começando-se pela guarda de espera, posição, como o nome indica, em que com o varapau em riste se espera a pancada do adversário. Depois, a arrepiada, pancada que é dada de baixo para cima; a parada, defesa de cada pancada do adversário tentando descobrir sempre de onde virá e como será, o rebate em que o varapau descreve um círculo sobre a cabeça do jogador; a pontuada que é uma pancada desferida com a ponta do pau; o sarilho que combina várias evoluções do varapau; etc..

Escusado será dizer que os varapaus não podem ser ferrados, a não ser, possivelmente, se fossem utilizados em guerras, como consta que aconteceu durante as Invasões Francesas, em que os nossos camponeses, sem outras armas, atacaram à paulada os invasores…

Uma das figuras mais curiosas desta arte marcial é o chamado varre-feiras, lutador que sozinho enfrenta vários adversários. Contam-se proezas deste género do famigerado bandoleiro oitocentistas José do Telhado e doutros que deixaram nome pela habilidade do manejo do varapau e pela valentia que revelavam, vários que tiveram a honra de figurar em romances de Camilo Castelo Branco, de Aquilino Ribeiro e doutros grandes vultos das Letras.

A escola do jogo do pau do Rancho Rosas do Lena apresenta normalmente, nas suas exibições, três posições que eram habituais nas lutas a sério que se desencadeavam nas festas, nas feiras e nas esperas nocturnas: um jogador contra um adversário, o apartador que intervinha entre dois lutadores apartando-os e o varre-feiras que se defendia de vários adversários levando, muitas vezes, a melhor; defendia e atacava utilizando a pancada de sarilho. E, casos houve em que dois jogadores amigos, costas com costas, enfrentavam um número considerável de inimigos.

A propósito do jogo do pau, a excelente “Revista da Armada”, no seu número de Setembro de 1985, se a minha memória não falha, e pela pena do comandante Melo e Sousa, depois de nomear os benefícios para o corpo e para o espírito na prática da modalidade, referindo elogiosamente a iniciativa do Corpo de Fuzileiros de a retomar, dizia: É pois necessário não deixar morrer esta arte, este desporto tipicamente nacional. A todos os bons portugueses se lança este alerta, muito especialmente àqueles que gostam do exercício físico em geral e também a todos aqueles que têm a cargo a difusão do desporto no nosso País”.

Além dos livros que se indicam no texto, há um do Dr. Ernesto Veiga de Oliveira, que foi autor entre outras obras preciosas de “Instrumentos Musicais populares Portugueses”, “O jogo do Pau em Portugal” essencial para o conhecimento da nossa arte marcial.

A fotografia que se publica foi tirada há anos no “Mercado do Século XIX”, na nossa Praça Mouzinho de Albuquerque, aos jogadores do Rosas do Lena.

Uma nota final: publicou o “Jornal de Notícias” de 3 de Abril do corrente ano, que se deslocaram aos Estados Unidos dois membros do Centro Cultural e Recreativo da Juventude de Cepães, concelho de Fafe e distrito de Braga, os srs. Pedro Silva e Óscar Cunha, que, convidados pela organização americana Immersion Labs Foundation, ali foram revelar o Jogo do Pau num certame em que estiveram representadas tradições de vários países das Américas, da Europa e do Oriente. A associação a que pertencem tem tido notável actividade na prática e divulgação da nossa arte marcial.

Segundo informação vinda a lume em Maio de 1988, se estou certo na data, no jornal “Voz das Misericórdias”, está sedeada no Ateneu Comercial de Lisboa, outra prestigiada agremiação que se preocupa com a manutenção e divulgação da nossa várias vezes centenária arte marcial, a Associação Portuguesa do Jogo do Pau.


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