Joana Marques, humorista: “Se não pode vencê-los afaste-se deles”

A guru de anti-ajuda e humorista, Joana Marques, começa a sua mais recente obra, “Vai Correr Tudo Mal”, com um convite ao leitor. Para nos amansar e mostrar o caminho certo na busca da nossa paz interior, desafia-nos para tomar um café. Convite que nunca recuso. Assim principio a demanda que este livro nos propõe: sermos a versão mais realista e honesta de nós próprios. Eu já comungava desta filosofia, mas agora tenho alguém a quem posso recorrer e citar. Chega de procurarmos o nosso “eu” interior e de atrairmos energias positivas.

Mas quem é esta filosofa dos tempos pós-modernos?

Joana Marques começou o seu trajeto no humorismo como guionista das Produções Fictícias em 2007, mas mostrar-se-ia pela primeira vez ao público no programa “Altos & Baixos”, que apresentava juntamente com Daniel Leitão. Este formato chegou a dar origem a espetáculos ao vivo, por isso, ainda vamos ter o prazer de voltar a vê-lo nos palcos deste país. É a autora da rubrica diária “Extremamente Desagradável”, que podemos ouvir no programa “As Três da Manhã”, da Rádio Renascença. Faz parte da equipa de autores do programa “Gente que não sabe estar”, de Ricardo Araújo Pereira. Também participa no programa “Irritações”, da Sic Radical, onde dá a sua opinião sobre vários assuntos da atualidade. Apesar de todo este reboliço, ainda tem tempo para assinar um crónica semanal no Jornal de Noticias, intitulada “Vale o que vale”.

Com esta craveira e currículo no mundo do humor, não é difícil de compreender porque a acho uma das melhores humoristas dos tempos que correm. Depois de ler o seu mais recente livro, achei que a melhor maneira de espalhar a sua palavra e ensinamentos seria através de uma entrevista com esta guru de anti-ajuda. Relaxem, não sonhem demasiado alto, e aproveitem as sábias palavras da Joana.

Apontas a Índia como ponto de fuga e de encontro com o nosso eu interior. Será possível fazer isso em Portugal? É que a vida não anda fácil.

Claro. É precisamente por achar que a Índia é um destino demasiado distante e que é, por isso, improvável, que encontremos lá o nosso verdadeiro eu, considero mais prudente procurar esse tal “eu” mais perto de casa, e deixo aliás algumas sugestões de viagens que podem servir igualmente de descoberta interior e saem mais baratas. Por exemplo, o campismo ou o caravanismo. Rapidamente trarão ao de cima o pior de nós, o que, parecendo que não, também será uma descoberta.

Este livro consegue responder a todas as minhas dúvidas sobre os gurus que andam por aí. Mas será que consegue demover os menos céticos?

Eu não pretendo demover os menos céticos porque não queria ser responsável pela falência da indústria da auto-ajuda, que dá de comer a tantas pessoas! Deve ser a isso que chamam “o pão que o diabo amassou!” Assim, não tento converter ninguém, simplesmente acredito que haja já muita gente convertida à anti-ajuda, a quem fazia falta um manual destes. É para esses que escrevo, os outros já são casos perdidos.

No livro falas muito sobre a questão do desapego. Desde a corrente do minimalismo material até ao afastamento dos amigos. Será que os anti-sociais já estão na moda?

Eu, como anti-social assumida, gostava que já estivéssemos na moda, era sinal de que o nosso comportamento já era aceite e não visto com maus olhos ou como má educação. Penso que ainda não chegámos lá. As pessoas praticam muito o tal desapego, no sentido de se colocarem sempre a elas em primeiro lugar e borrifarem-se um pouco para os restantes, mas ainda gostam que esses “restantes” estejam lá, para assistir ao seu sucesso. Ou seja, ainda se enfiam propositadamente em eventos sociais, e em redes sociais, para terem essa tal aprovação de terceiros. Para exibirem o seu desapego em grande estilo!

Eu sou um cético com todo esse tipo de publicações. Que alternativas o teu livro sugere para além de encarar a dura realidade?

Muitíssimas alternativas! A primeira, desde logo, é poupar o dinheiro que iriam gastar em livros de auto-ajuda e investi-lo noutra coisa. Comparo os livros de auto-ajuda às iogurteiras: parece boa ideia no momento em que a compramos mas depois nunca mais lhe damos uso. De resto, sugiro que as pessoas, por exemplo, não embarquem naquela ideia de que é preciso ser empreendedor, deixar o trabalho de sempre e lançarem-se num projeto individual. Na maioria das vezes isso é só o primeiro passo para a ruína. Em termos afetivos, sugiro que pratiquem o tal desapego a 100%, cortando relações com o máximo de pessoas possível, até porque as pessoas trazem sempre chatices, e sugiro que não se amem demasiado porque amor próprio ou auto-estima a mais tornam-se insuportáveis. No fundo não é um livro para as pessoas serem “a melhor versão de si mesmas”, como costuma ser dito na auto-ajuda, é um livro para tentarem ser menos chatas para quem as rodeia.

Achas que alguém mudou o estilo de vida com este livro? Eu imagino que possa tornar as pessoas melancólicas, mas como já sou sinto-me na mesma.

Espero que tenham mudado o estilo de vida apenas no sentido de não acreditarem em todos os gurus ou mental coaches que aparecem ao virar da esquina ou nos anúncios do Instagram.

Como é que hoje em dia ainda perduram os esquemas em pirâmide, como se fosse um sinónimo de sucesso e luxo?

É um dos grandes mistérios da humanidade. Não encontro explicação!

Gosto muito do rubrica que fazes, o “Extremamente Desagradável”. De que forma desenvolves o processo de investigação para encontrar tantas pérolas da nossa História recente?

Perco muito tempo (ou ganho, depende do dia e dos resultados) a ver televisão, ouvir podcasts, procurar sites, ler jornais, navegar no Youtube meio à deriva... e às vezes tenho sorte. Há dias com muito assunto e outros em que não se passa nada. Essa é a parte mais desafiante, encontrar o tema. A partir daí tudo é mais fácil.

Muito obrigado pelo teu tempo e continua com esse humor mordaz e acutilante que só tu sabes fazer.

Francisco Oliveira Simões

Historiador/autor da coluna Crónicas do Passado


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