José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (186)

Instrumentos musicais e heráldica do Mosteiro

Continuo neste número a falar na heráldica da Capela do Fundador, talvez simples divagações de curioso na matéria, mas no próximo número se Deus quiser, retomarei os instrumentos musicais que estão esculpidos em vários locais do mosteiro, reproduzindo possivelmente instrumentos que eram usados nos séculos XV, 12 no pórtico principal (mas, recordo, apenas 8 diferentes porque alguns, como já disse, estão repetidos), 12 no capitel, lá muito alto, de uma das colunas da igreja conventual, mais alguns noutras colunas, 1, como referi, no canto noroeste do Claustro Real junto à passagem para o Claustro de D. Afonso V e, pelo menos, 2 em gárgulas das paredes norte e sul das Capelas Imperfeitas. Todos menos os das gárgulas são tangidos por anjos.

Como também já referi, mas nunca é demais lembrar, nas buscas dos instrumentos musicais tem-me valido o bom amigo e exemplar funcionário do Mosteiro, Luís Matias Ceiça, que conhece o monumento pedra a pedra, a cada uma dedicando um verdadeiro carinho.

Voltando à heráldica, em que tive outro apoio decisivo, da também funcionária dedicada do monumento, Professora Júlia Rosário, que me forneceu elementos clarificadores e imagens que contêm em si todas as informações que procurava, relembro que na pedra de armas do Infante D. Henrique a “diferença” está errada, dado que deviam ser as três flores de lis e não entalhe, que é a “diferença” de seu irmão o Infante D. João, emendo o que disse sobre a “diferença” do Infante D. Pedro, o tão célebre e valoroso quanto infeliz Regente do Reino, morto na muito trágica batalha fratricida de Alfarrobeira, pois são três e não dois arminhos, apenas lá figurando dois, arminhos que deviam estar também, e não o entalhe, na pedra de armas correspondente à sua família, filha que era do Infante D. Pedro, no brasão da Rainha D. Isabel (de Coimbra) mulher e prima de D. Afonso V. Também esta rainha, que morreu com cerca de 23 anos de idade, em 1455, mãe da Infanta Santa Joana e do Rei D. João II, não a bafejou a sorte, falecida em plena mocidade depois de ter vivido o angustiante período da dolorosa desavença, entre seu pai e o seu marido, que culmina em Alfarrobeira.

No túmulo dos seus pais, ao lado do seu, o brasão de sua mãe, D. Isabel de Urgel, tem os campos ao contrário pois o do Infante D. Pedro deveria estar à direita da pedra de armas e o da sua mulher à esquerda.

Deixo, porém, aos entendidos nesta matéria, parte integrante e importante das ciências da História, a função de me emendar, se estou a errar, ou de emendar o que estará errado na heráldica da Capela do Fundador.

Através da Professora Júlia Rosário recebi o estudo de Miguel Ângelo Bôto, que publica os brasões dos nossos reis e príncipes, incluindo os da família do descendente dos reis portugueses, o duque de Bragança D. Duarte Pio, todos acompanhados por esclarecedoras legendas. Com a devida vénia, reproduzo os cinco escudos da Ínclita Geração, a que só falta o da Infanta D. Isabel, que veio a ser duquesa de Borgonha pelo seu casamento com Filipe o Bom, figura excelsa como os seus irmãos. Deste casal nasceu o célebre Carlos, o Temerário. Como em tempos disse, em 1808 ainda estava no Mosteiro um quadro, atribuído ao pintor flamengo Rogier Van der Weyden (século XV), que reproduzia os duques de Borgonha em adoração à Santíssima Virgem e ao Menino, acompanhados pelo filho Carlos. Este quadro, que foi copiado, em simples desenho, pelo nosso pintor Domingos António de Sequeira quando, naquele ano do princípio do século XIX, veio à nossa Vila a acompanhar o arqueólogo, e também pintor, francês Conde de Forbion, oficial do estado-maior do exército invasor de Junot, desapareceu pouco depois, por altura da 3ª invasão napoleónica, a de Massena, com certeza surripiado ou destruído pela soldadesca.

Começando pelo escudo de D. Duarte, que sucedeu ao Trono a seu pai D. João I, aqui ainda com o lambel (ou banco de pinchar) que eu julgava não constar na pedra de armas dos herdeiros do Trono, portanto dos Príncipes Reais, embora sem a diferença nos pendentes, lambel que desaparecia nos escudos reais, e continuando no do Infante D. Pedro, que nos pendentes ostenta três, e não apenas dois arminhos, ou melhor: mosquetas de arminho, depois o do Infante D. Henrique com três flores de lis em cada pendente, a seguir o Infante D. João, com o tal entalhe nos pendentes, e por fim o do Infante D. Fernando que em vez do banco de pinchar tem gravados, como diferença, dois leopardos, herança heráldica da família de sua mãe, os duques de Lencastre, exactamente como a proveniência das mosquetas de arminho do Infante D. Pedro.

Quem vem à Batalha, em simples visita turística, não dispõe de tempo para observar cada pormenor do vasto monumento, mas os batalhenses e quem vive na região podem e devem fazê-lo. O Mosteiro contém em si uma enciclopédia que abrange diversos campos do saber, sobretudo da História, da Arquitectura, do Vitral, da Escultura e, evidentemente, da Religião, nunca esquecendo que o Mosteiro, construído em honra e agradecimento à Santíssima Virgem, na sua invocação da Vitória, foi um convento e tem como seu espaço principal uma igreja.

E aos batalhenses compete, mais do que a ninguém, serem seus vigilantes, sempre prontos a zelá-lo e a protegê-lo e, já que vivem paredes-meias com ele, a colherem as suas mensagens e a aproveitarem-se das suas lições.

Casa da Madalena

Peça a peça, o Museu Etnográfico da Alta Estremadura

Antes de descermos a escada e de irmos visitar a loja do edifício e o pátio, parcelas essenciais nas casas rurais de sobrado, como neste caso, indo encontrar na loja as alfaias agrícolas em tamanho natural, que já tivemos oportunidade de ver em miniatura na respectiva divisão do 1º andar, o que acontecerá, se Deus quiser, no próximo número, vamos mostrar parte do exterior do edifício que repito, para quem não saiba, se situa no rocio da Rebolaria, mesmo em frente ao Centro Recreativo da localidade, a cerca de quilómetro e meio do centro da Vila da Batalha. A sede do Rancho Folclórico Rosas do Lena, proprietário do Museu, a sua Casa da Cultura que contém a única biblioteca etnográfica da região e das raras do País, e outras instalações do prestigioso agrupamento, estão umas centenas de metros abaixo, a seguir ao largo Padre Mestre António Rino que fica no “fundo do lugar”.

Todo o edifício do Museu beneficiou este ano dum amplo arranjo, voltando a ser rebocado e pintado. O mesmo restauro abrangeu portas e janelas. O edifício já é, em si, um espaço museológico, datando em parte do século XVIII ena restante do século XIX. As paredes interiores de carrisca, casca de pinheiro em argamassa, nas divisões situadas a sul, são um bom indicativo da sua antiguidade. Como se disse em números anteriores, uma das paredes de carrisca pode ver-se através dum painel de vidro. O exterior, todo caiado, é bordado por uma barra azul, tradicional na Estremadura e nas terras meridionais do nosso País. E entre outras características, o alpendre, neste caso no cimo das escadas de acesso à cozinha.


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