José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (194)

Infante D. Henrique, Imperador de novos mares e de novos céus

Infante D. Henrique

 

“Talant de bien faire”

 

Tive a vocação

do bem.

 

E o bem que fiz

foi dar esta vocação

ao meu País

e ambos cumprirmos a Missão

que concebi

e que Deus quis.

 

Cumpriram-se no biénio 2018-2019 seiscentos anos do achamento das Ilhas de Porto Santo e da Madeira, primeiros da longa gesta dos Descobrimentos, e em 2019 o sétimo centenário da fundação da Ordem de Cristo.

São acontecimentos de tal relevo que não podemos deixá-los passar despercebidos sem atentarmos contra a memória do Povo Português e sem cometer o erro de não aproveitar a lição que deles provem.

Creio que é necessário, e urgente, envolver o Povo Português numa análise serena da figura do Infante D. Henrique, da ordem que ele governou e que o apoiou decisivamente e do projecto universal que levaram avante com todo o êxito que humanamente é possível, mas opondo-se a visão histórica, que é imparcial, e a lição dos factos que tem de ser objectiva, à análise meramente ideológica e com finalidade de política partidária que, infelizmente, já teve efeitos extremamente negativos no processo da criação do Museu dos Descobrimentos.

O século XV é o tempo da preparação e da execução de um dos maiores empreendimentos da história da Humanidade, o primeiro desta dimensão na Europa, cujo idealizador principal é o Infante D. Henrique e principais protagonistas o nosso Povo e a Ordem de Cristo.

E pergunto-me frequentemente se não tivessem existido este príncipe e a Ordem de Cristo, teria sido possível levá-lo avante com tal dinamismo e com idênticos resultados?

Antes de tudo o projecto dos Descobrimentos envolve uma evidente componente científica e técnica. Nada foi feito ao acaso, tudo se analisou, tudo se estudou, utilizando-se sabiamente todos os dados disponíveis de ordem oceanográfica, náutica, astronómica, cartográfica e matemática, não duma forma estática mas dinâmica, abrindo-os à descoberta doutros dados, à rectificação e à clarificação. Não houve uma escola náutica em Sagres, mas houve, sim, uma verdadeira universidade nacional prática, onde se desenvolveram todos os saberes relacionados com a geografia, com a navegação, com a construção naval, com a orientação pelos instrumentos que fomos aperfeiçoando e pelas novas estrelas que fomos descortinando nos mares do sul.

Um dos casos que se tem de pôr em relevo pelo que revela de inteligente adaptação às novas condições da navegação e ao sábio aproveitamento dos novos ventos é o da transformação duma barca mediterrânica, pequena e aparentemente desadequada para o mar-oceano, que até ali só servia para serviços costeiros e para a pesca a poucas milhas da costa, num navio capaz de enfrentar outros mares e palmilhar outras costas: a caravela, com capacidade para marear à bolina, ou seja poder aproveitar o vento de qualquer lado que soprasse. Mais: este singular navio tinha o seu cavername feito de madeira de sobro e de azinho, sendo assim esses nossos navios os únicos no mundo que utilizavam estas madeiras. Quem o diz é o almirante Rogério de Oliveira na obra “Naus, Caravelas e Galeões na Iconografia Portuguesa das Descobertas” (Quetzal Editores, 1993).

Estou crente mas peço perdão por enveredar por caminhos que não conheço e onde posso tropeçar, que, na realidade, o tesouro templário, hoje motivo de rocambolescas buscas num programa televisivo, existiu. Não ficou em Madagáscar, na Inglaterra, na França ou nas Américas, mas, sim, em Portugal e as suas barras de ouro eram, afinal, barras espirituais de saber e de experiência que, habilmente e como que a prever a sua utilidade futura o nosso Rei D. Dinis, o “plantador de naus a haver”, soube aproveitar depositando-as na caixa forte da sucessora e herdeira dos Templários, a Ordem de Cristo, braço direito do Infante.

Há seiscentos anos, sem falar no que já vinha sendo preparado, iniciam-se os Descobrimentos, evidentemente os que os Portugueses idealisaram e levaram avante e, ainda em vida do Infante, para além do Cabo Não e do mítico Cabo Bojador, se passaram a conhecer os mares e a costa africana até oito graus acima do Equador.

Tirando, na prática, os poucos palmos de terra dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, o Infante tornou-se, na realidade, o Imperador dos mares que os seus navios desbravavam e ocupavam, sem contestação, e os céus que os cobriam, céus que se ia verificando terem outras estrelas e constelações. Estes achados estão na génese de novos conhecimentos que será bem possível já fazerem parte do tesouro oculto da Ordem de Cristo.

Idealizador e impulsionador do projecto, a que dedica toda a vida, como que de um sacerdócio se tratasse, e na realidade era, o Infante D. Henrique leva um povo inteiro a protagonizá-lo. Lá andaram os nossos longínquos avós.

Há, porém, um aspecto que não posso deixar de referir até porque se quer transformá-lo numa sua principal consequência, para não dizer: única, e assim macular os Descobrimentos e, inclusivamente, apagá-los da nossa memória: a escravatura.

A escravatura é sempre condenável, a escravatura existente naquele tempo e a que continua a existir sob outras formas no nosso tempo.

Mas esse aspecto negativo não pode impedir que se reconheçam todos os outros aspectos positivos da gesta dos Descobrimentos. Não pode impedir que se saiba que os portugueses, na sequência do projecto henriquino, levaram aos mundos a que chegavam, e chegaram antes de qualquer outro povo europeu, a primeira tipografia, doada à África, neste caso particular à Abissínia, acompanhada por mestres e oficiais encarregados de ensinarem a sua arte (tipografia enviada pelo Rei D. Manuel I), que espalharam hospitais por todos os continentes, hospitais que eram instituições então desconhecidas na maior parte do Mundo, com destaque para o grande hospital de Goa, com mais de duas mil camas, que causou espanto e motivou uma entusiástica descrição de dois visitantes franceses em 1580 (já aqui motivo de vários apontamentos); que fundaram as primeiras escolas agrícolas do Oriente e o primeiro jardim-escola do Japão e que, inclusivamente, os nossos Jesuítas reformaram e modernizaram o observatório astronómico de Pequim.

Com o projecto iniciado e impulsionado pelo Infante D. Henrique, participado pelo nosso Povo e apoiado pela Ordem de Cristo, o Mundo deu-se a conhecer nos seus cantos mais recônditos, recebeu as novidades científicas veiculadas pelos Portugueses, então pouco mais de um milhão de almas, iniciou proveitosas relações comerciais ou, pelo menos, proporcionou-lhes outra dinâmica e novíssimos destinos.

Mas que força impeliu então o nosso país, hoje tão dado a fraquezas de ânimo e à inexistência de qualquer projecto colectivo adaptado às condições e aos tempos modernos, com dimensão que honre o do seu passado quatrocentista?

Creio que essa força adveio do carisma do Infante destinado a conduzir um Povo, à semelhança dos profetas bíblicos, no cumprimento duma missão neste caso universal, inovadora nos métodos e nos propósitos e inigualável na firmeza da sua prossecução.

Reproduzo da “Iconografia Henriquina”, do professor Luís Reis-Santos, edição de 1960 da Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, a magnífica escultura do Infante, do notável escultor Francisco Franco. Esta obra foi destinada ao Jardim das Tulherias, em Paris.

 

Nota Final

Por este apontamento ter excedido o espaço habitual, não publico neste mês a referência à Casa da Cultura do Rancho Rosas do Lena.

 


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