José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (188)

As imagens da Senhora do Ó no Mosteiro, Espanto e Encanto

Sobre este aliciante tema das Senhoras do Ó, ou da Expectação ou Anunciação, neste caso as que foram esculpidas no nosso Mosteiro, transcrevo a opinião abalizada do mais notável e completo dos autores que escreveram sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Professor Doutor Saul António Gomes, vinda a lume nas suas “Vésperas Batalhinas” (páginas72 e 73), aproveitando o ensejo para o saudar por ter sido distinguido com mais um significativo prémio, o que lhe foi atribuído há semanas pela Academia Portuguesa de História, pelo excepcional mérito da sua obra “LEIRIA – CIDADE E DIOCESE. DOCUMENTOS FUNDACIONAIS (1545-1918)”, ditada pela Textiverso, considerada editora leiriense:

“A Anunciação mais arcaizante é, sem dúvida, a do capitel da coluna adossada na Capela de St.ª Bárbara (capela onde está agora o Santíssimo). Arcanjo e Virgem aparecem ainda muito hieratizados, denunciando a visão teológica do acontecimento já estabelecida desde Trezentos, em que o Arcanjo Gabriel começou por ser representado de joelhos perante Maria. Esta levanta o braço com a palma da mão aberta para o Mensageiro de Deus, em sinal de aceitação. Perante ela, genuflexionado, Gabriel segura na mão esquerda o filactério com a inscrição saudadora da Cheia de Graça – “A(ve) Maria” – voltada para o fiel passante. Flores litânicas de Maria, símbolos do Paraíso, enchem por completo um porte alto, de asas, que aparece, como elemento separador, entre ambas as figuras divinas.

“(…) Atrás do Arcanjo encontra-se a figura do diabo, careca, os órgãos do rosto marcados com exagero, a parte inferior do corpo filiforme e atrofiada, virando ao observador o ânus que toca com a mão direita. (…) Símbolo, também, imagético do pecado que a Virgem de Nazaré esmagou, cumprindo as profecias. Nas costas de Maria, um homem, já idoso, barbado, toca alaúde, elevando os olhar para os céus. Alusão, porventura, ao cântico de Zacarias, em louvor do Criador pelo cumprimento da promessa messiânica".

Pergunto, porém, ao Professor Saul Gomes, se a mão erguida e espalmada da Virgem não terá, também a função de esconjurar o mal, ali explícito na figura do diabo que parece fazer fosquetas provocatórias por trás do Arcanjo.

É este conjunto interessantíssimo que ilustra este “Apontamento” em belíssima fotografia de António Luís Sequeira.

Transcrevo agora, o que o historiador diz sobre as duas restantes representações batalhenses da Senhora do Ó:

Anunciação mais actualizada é a das colunas da nave central junto ao transepto do templo. Aqui, o Arcanjo anuncia a Encarnação portando não o tradicional filactério (tira de pergaminho com legendas religiosas), mas antes uma flor, enquanto Maria, na coluna e capitel simétricos, pegando um lírio, aparece como uma respeitável matrona com pelote de acentuado decote e um capuz de górgea, recoberto por uma espécie de turbante mourisco, que acentua uma figura cortesã quase religiosa de matura idade”.

E a mais recente, mesmo assim do século XV, de que reproduzo a imagem da Virgem Maria no “Baú da Memória”, esculpida fora do templo:

“Na Anunciação da nave oriental do claustro (decerto de meados do século XV ou inícios da sua segunda metade) num janelão da Sala do Capítulo, o arcanjo Gabriel mantém a postura tradicional, levemente genuflexionado, com o rosto voltado, não para Maria, mas para o público passante. Atitude idêntica, aliás, à da Virgem. Esta é representada sem toucado, de véu curto que deixa ver os cabelos ondeados, juvenil, vestida com opa ajustada e bem pregueada com amplo decote que permite espreitar os seios. A cintura é alta, logo abaixo dos peitos, firmada por fino cinto, de forma a fazer sobressair o busto. Envolve-a um mantão, ou redondel, que a mão esquerda prende á cintura, efeito que lhe faz realçar muito o ventre – moda feminina corrente em meados do século XV. – Na mão direita, agarra contra a anca uma pequena vasilha. De acordo com a moda, a dama traz um colar ao pescoço, no caso composto por seis simbólicas mãos que poderemos classificar, à falta de informação, como Mãos de Fátima”.

As “mãos”, reminiscência de antigas culturas mediterrânicas a que não foram imunes o Cristianismo e o Maometismo, que nascem e se desenvolvem no aro mediterrânico, tinham como função simbólica afugentar o mal ou dele, utilizando-as como escudo, se defenderem. Os Cristãos adoptaram-nas nas Mãos da Senhora do Ó (da Expectação ou da Anunciação), de que é tão expressiva a imagem do Claustro Real da Batalha. Os Maometanos ou Muçulmanos, nas Mãos da Princesa Fátima, filha do Profeta Maomé, Mãos que vemos pintadas a azul nas paredes do Magrebe ou, transformadas em punhos batentes das portas, sempre com a função de afastarem o mal. Como herdeiros de tantos aspectos da Cultura Árabe, adoptámos estes batentes para as nossas portas das casas mais antigas.

As Mãos espalmadas desta forma creio, porém, que, na sua função de esconjurar o mal, são exclusivas do Cristianismo, e é a imagem do Claustro Real a mais expressiva desse uso singular, a mão direita espalmada e erguida, a mão esquerda sobre a barriga onde se gerava o Filho de Deus e o espantoso colar de seis mãos espalmadas, três mãos direitas e três esquerdas, tudo se conjugando para uma defesa cerrada do Verbo Divino.

E, agora, o mistério da escultura da Senhora do Ó, que está no Claustro Real, à entrada da Casa do Capítulo: tem a mão direita partida ou segura um pequeno pote? No nº 6 dos “Cadernos da Vila Heróica”, edição de 2001, em “Perguntas e Incertezas na Decifração duma Escultura no Mosteiro”, inclinei-me para se tratar de um pote (ao alto), o que também teria sentido porque, como acontecia nas antigas civilizações mediterrânicas, significaria a vida conteúda, enquanto o pote inclinado seria a vida a brotar. Era esta também a interpretação do Professor Doutor Saul Gomes, expressa nas “Vésperas Batalhinas”, edição de 1997. Mas a escultora Adália Alberto, que analisou pormenorizadamente a imagem para fazer a réplica, chegou à conclusão que seria a mão partida e não o pote, referindo que o antebraço é um tanto bojudo.

Como o leitor pode ver, há no Mosteiro tanta coisa para ser observada, tanta informação, tanto espanto e tanto encanto, que só visitas frequentes e atentas nos poderão desvendar o espólio material e espiritual que ele encerra, mas que põe inteiramente à nossa disposição, assim o queiramos aproveitar.

Um Bom Natal e um Ano Novo repleto das Graças de Deus.

Casa da Madalena

Peça a peça, o Museu Etnográfico da Alta Estremadura

Termino, neste número, a visita ao Museu Etnográfico da Alta Estremadura, fundado e administrado pelo Rancho Folclórico Rosas do Lena, que, como disse num dos números anteriores, devia ser designada antes por “Divisão a Divisão”. E termino-a num espaço de grande importância para as casas rurais, o pátio, onde se desenrolavam tarefas complementares, e essenciais, da vida doméstica. No pátio tinham-se os currais do gado, as capoeiras, algumas vezes o forno, como este que vemos na fotografia em dia da sua utilização pelo agrupamento numa das suas reconstituições, e quando havia poço, como é o caso, a possibilidade de se lavar a roupa. E havendo poço, havia também a picota ou a nora para tirar a água, que mesmo nos verões secos era raro faltar.

Instituição que deve ser motivo de orgulho não só para a aldeia onde se situa, a Rebolaria, mas para o Concelho da Batalha e para a histórica região que representa, a Alta Estremadura, onde no tempo do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques, se começou, a partir da fortaleza de Leiria, a segunda metade de Portugal, é um dos raros e mais completos museus etnográficos do nosso País.

Em Janeiro irá receber, de novo, as Oficinas de Artes e Ideias, em data que oportunamente será divulgada.


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