Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

HCESAR

Uma secretária de aço inoxidável com tampo de madeira, robusta como um charuto cubano, inabalável e retilínea, à imagem do Estado que se tentava prodigalizar além-fronteiras, repousava num escritório nefasto e banhado por fumo de cigarro.

As persianas estavam entreabertas e a pesada cadeira metálica fazia chiar as rodas aprisionadas. Um copo de whisky quase esvaziado sobre a secretária imponente aguardava o seu portador, para o encher com o liquido miraculoso do esquecimento. A máquina de escrever Olivetti soava as notas indistintas do funcionamento desinspirado, relatando histórias assombrosas e furtivas. Nunca o Sr. Camilo Olivetti, quando fundou a sua companhia em 1908, poderia sequer pensar que se escreveriam frases tão hediondas na maquinaria que deu à luz.

O inspetor Henrique César deixava documentado tudo o que experienciava no decorrer do exercício da sua corajosa atividade profissional. Envolvido pela neblina do fumo e da grandeza do ofício. Já havia resolvido tantos casos durante a sua vida, que lhes tinha perdido a conta.

O dever chamava, tinha de sair para o terreno, em busca de um criminoso matreiro, que punha em jogo toda a sociedade lisboeta, quiçá portuguesa. Vestiu a gabardina creme e o chapéu de feltro, ambos de produção nacional e qualidade comprovada. Pôs a arma no bolso de dentro do blazer e fechou a porta do covil.

Um cavalheiro passeava de braço dado com uma dama pelo Rossio, naquela noite invernal de janeiro de 1958, quando deu de caras com o célebre inspetor. O casal assustou-se diante da imagem obscura de Henrique e vacilou o passo.

- O que fazem na rua a estas horas da noite? – perguntou César.

- Fomos ao teatro ver uma peça e beber um copo de Porto – respondeu o incauto transeunte a medo.

- Muito bem! Essa peça foi escrita por um dramaturgo português?

- Sim, era de Almeida Garrett.

- Folgo em saber. Tenham uma boa noite, cidadãos.

A conversa terminou e César partiu na sua demanda pela seriedade e rigor dos serviços do Estado português. Regressou ao escritório e deixou a papelada tratada, para o regalo do seu superior hierárquico. Os colegas não lhe falavam muito, assustados pelo semblante austero e voz tonitruante. O chefe chamou-o ao seu gabinete e confiou-lhe mais uma desafiante missão, que só ele podia levar a bom porto.

- César, chamei-o aqui para resolver um crime mesquinho de um lacaio da desordem à moral e bons costumes, que este glorioso país nos habituou.

- Tenho ordem para…

- Tem, é para abater, sem lhe dar tempo para respostas.

- Assim o farei, sabe que levo sempre a arma comigo.

- Sei como as suas medidas são pouco ortodoxas, mas precisamos de pessoas como o Senhor Doutor nesta difícil tarefa – respondeu o chefe pondo a sua mão direita no ombro de Henrique.

Patrulhou as ruas noturnas da capital para desmascarar o vil infrator. Foi ao Hot Clube ouvir essa música americana, o jazz. César não era grande amante das artes exteriores à portugalidade. Naquela noite tocavam êxitos de Charlie Parker e o gin corria pelas mesas de mansinho, elevando o grau de erudição do público.

O inspetor queria interrogar o saxofonista do quarteto. Durante um intervalo mais longo, um dos empregados segredou ao ouvido do músico e apontou para a mesa de Henrique.

- Ouvi dizer que queria falar comigo? – disse o líder do quarteto enquanto se sentava em frente do inspetor.

- Quentin Werty, não é verdade?

- Estou a ver que aprecie bom jazz, para conhecer o meu nome.

- Não, desprezo. Mas conheço muito bem gente da sua laia.

- Artistas?

- Não, meliantes que fogem aos impostos.

- Por favor, eu pago tudo, só têm de me dar tempo – pediu encarecidamente Werty.

- Agora é tarde. Os seus documentos?

Quentin levanta-se e corre o mais rápido que pode, no entanto César retira a sua sempre fiel arma e arremessa-a contra o fugitivo em marcha, que fica estendido no chão do bar.

- A minha amiga nunca me desilude – disse Henrique, enquanto se baixava para apanhar o carimbo verde seco do chão.

Vai ao bolso interior do blazer e retira a papelada correspondente à transgressão fiscal do Sr. Werty. Senta-se e vai folheando os documentos, depois de lamber ao de leve a ponta do dedo indicador da mão direita.

- Multa por inexistência da autorização de porte de isqueiro, coima por ainda não ter saldado o imposto de selo correspondente ao ano transato, atraso no… - a lista dos delitos era extensa e César fazia questão que todos os dados fossem apresentados ao transgressor, mesmo que este continuasse estendido no chão.

Henrique regressou à repartição de finanças, sob a aclamação do chefe e o olhar aprovador da sua sempre leal secretária institucional, que só a melhor madeira de pinho e a industria metalúrgica nacional podiam criar.

 


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