João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

FF, artista completo

A edição de 2022 do Festival RTP da Canção já se realizou. Chegaram ao final do certame dez canções, entre as quais se contou uma em particular, intitulada “Como É Bom Esperar Alguém”, interpretada por FF. Essa canção obteve o terceiro lugar, logo atrás da segunda classificada “Amanhã” de Os Quatro e Meia e da canção vencedora “Saudade, Saudade”, interpretada por Maro. “Como É Bom Esperar Alguém” fala do prazer de esperar por alguém querido e, musicalmente, espelha as referências que inspiram o cantor, influências que vão desde a Amália Rodrigues a Dulce Pontes, de Elis Regina a Caetano Veloso, de Carlos do Carmo a Jacques Brel. Porém, só os mais distraídos ficaram a conhecer FF através da sua participação no Festival da Canção, já que o multifacetado artista anda nestas lides há duas décadas e com alguma notoriedade.

Conhecido por FF, o seu nome verdadeiro é Fernando João Duarte do Carmo Abrantes Fernandes e nasceu em Lisboa em 1987. Tinha sete anos de idade quando foi viver para o Alentejo e em Évora estudou violino e teve aulas de canto. A carreira de Fernando Fernandes inicia-se num programa de televisão, onde cantou o fado Gaivota, imortalizado por Amália Rodrigues. Corria o ano de 1999. Três anos volvidos, regressa a Lisboa para ingressar na Escola Profissional de Teatro de Cascais, estabelecimento onde tirou o curso de representação. Mas foi o passo seguinte, em 2005, que trouxe visibilidade a FF e o tornou conhecido do grande público, quando na série de televisão Morangos Com Açúcar desempenha o papel de uma personagem que também canta. Combina então a arte do canto com a arte da representação e a sua brilhante capacidade interpretativa passa a revestir-se de uma certa teatralidade. Lança o seu primeiro disco, o qual incluía os temas de sucesso “Tudo O Que Eu Quero” e “O Meu Verão Não Acabou”. Chamava-se este seu registo de estreia Eu Aqui. No ano de 2010 edita O Jogo Recomeça, outro álbum com assinalável êxito de vendas e onde podemos encontrar temas como “Voo de Astronauta”, “Há Qualquer Coisa de Mágico em Ti” ou “Ponteiro da Solidão”. Mas é em 2014 que FF atinge a maturidade com Saffra, trabalho que marca a sua carreira visto contar com convidados de luxo, não só para o acompanharem (Dulce Pontes presente no tema “Blues Transmontano”), mas também na própria composição dos temas: assim, Tiago Machado na canção “Viagem de Mim”; Tiago Torres da Silva no tema “Safra Deste Ano”; ainda “Dança da Solidão” de Paulinho da Viola; “A Minha Luz” por Jorge Fernando ou “Fado da Sina” de Amadeu do Vale”, entre outros. O resultado é um álbum magnífico, o qual, arriscamos dizer, constitui até à data um dos melhores trabalhos discográficos da música portuguesa do século XXI.

Não devemos omitir que a carreira de FF não se esgota no domínio da interpretação musical. Também se distingue como ator, quer de teatro, quer de televisão e, neste último contexto, tem deixado a sua marca em diversos programas que, por serem inúmeros, não vamos aqui especificar. No entanto, o seu fascínio por certos artistas de música, leva-o quase sempre a cantar nesses programas composições de outros, como Prince, Kate Bush ou Tina Turner. No teatro, entrou em grandes produções e em musicais como Peter Pan, em 2017, ou O Fantasma da Ópera, em 2019.

FF é dotado de uma voz elástica, que transita facilmente entre tons, timbres e duração de agudos e baixos, o que o torna numa voz única no panorama musical nacional. Por isso, aguardamos por um seu novo trabalho discográfico, já que decorreram oito anos depois de Saffra. E apesar de dar concertos um pouco por todo o país, os portugueses que gostam da sua música querem um novo disco que, têm a certeza, fará jus à dimensão do seu talento.

 

 


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