Francisco André Santos

Diacrónicas

As feministas

Começo a desconfiar que existe algum tipo de correlação entre feministas e problemas com telemóveis. De alguma maneira, aqueles que se afirmam feministas, parece-me, observam algum tipo de antagonismo com o telemóvel. Possivelmente, será por ser “o” telemóvel ou por ser eu a ligar. Ainda assim, sou obrigado a admitir que a correlação muito se baseia nos problemas em contactar duas amigas aqui por Roterdão. Vinda da Polónia, a Joanna tem um único modo de contacto que é a aplicação do WhatsApp, e a Susana, compatriota, é obrigada a falar em altifalante, isto é, quando alguma delas atende.

Parece-me haver um certo vanguardismo nisto tudo. Quiçá se o telemóvel é um retrocesso, mas com este duo magnifico, coloco tudo em questão. E é nesta precária insurreição em que desde a cozinha, julgamos o mundo como deveria de ser. E nos julgamos uns aos outros. Colocamos em questão a burguesia da Susana, as compras da Joanna, assim como o meu feminismo masculinamente minoritário. Trabalhamos toda a dialética, da direita para a esquerda, de cima para baixo. À falta de léxico, pregamos um sorriso de esguelha enquanto introduzimos um novo conceito. Bolas! Como me divirto nas nossas discussões de cozinha.

Às vezes, batemos em assuntos mais pessoais. Mudamos o tom e passamos ao aconselhamento e conforto. A Joanna reconheceu, com muita inteligência, a pouca necessidade do sistema universitário. Consegui convencê-la de que se quisesse mudar esse ou outro sistema, de que necessitaria desse reconhecimento institucional, tamanha dificuldade seria se não o fizesse. A mãe da Joanna, nem pode imaginar alguma alternativa sexual da filha. Já o pai da Susana, continua com dificuldade em aceitar a cor de pele do namorado, se é que já lhe contou.

Mas elas não esperam nem por mim nem pelo mundo, e isso inspira-me. Preparam agora para o dia 8 de Março, dia da Mulher, uma marcha feminista. Ainda não sei bem da temática da pouca roupa nessa marcha, até que por aqui faz frio, mas estão a criar uma ação concreta para lidar com um assunto que lhes é querido. Será o primeiro protesto que organizam e de alguma maneira, a minha presença parece obrigatória. Afinal de contas, feminismo é pela igualdade entre sexos.

Por experiências negativas ou simplesmente por acreditarem na necessidade de reivindicarem, encontramos por aí (sobretudo) mulheres aguerridas. A política é uma problemática e chateamo-nos com políticos como nos chateamos com feministas. Para mim, até me explicarem o machismo da minha ação, assim o sou por ignorância, essa que reflito de volta com argumentos. Felizmente, elas são um pouco mais pacientes comigo, debatem e explicam-me as suas ideias.

Daí decorre um problema: a nossa identidade não é assim tão própria. Podemos até afirmá-la, mas além de como nos identificamos, persiste como nos identificam. Perguntando a conclusão do seu doutoramento, o meu amigo Jochen explica-me que as correntes de política de identidade, relativamente recentes, são desprovidas de um objetivo ou sistema político claro. Em alternativa, são construídas pela negativa. Sem saberem o que são, afirmam aquilo que não são. Podemos não saber o que é um mundo matriarcal, mas sabemos bem que não queremos um mundo patriarcal. Até lá, onde quer que seja, será preciso polir e até lapidar um novo equilíbrio.

Mas sempre que vou a casa da Joanna e da Susana, sou bem tratado, portanto, dá gosto insistir. Dois anos de companheirismo aqui por Roterdão já dava para um livro, mas por enquanto, fica uma marcha!


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