Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

Épico Jazzístico dos Sonhos Perdidos

Encontrava-me no dia 3 de Maio de 1935, numa Lisboa quente e soalheira, mesmo que o cumprimento do meu dever me obrigue a dizer que estava nublada e a preto e branco. Calcorreava as ruas mais movimentadas da noite artística e literária. Parei num bar mal frequentado do Cais do Sodré. Bebia descontraído uma cerveja e pensava no meu próximo livro, quando sou surpreendido por um homem estranho e de gabardina comprida.

- O que me conta da bela Helena? – pergunta o sujeito enquanto retira o chapéu de feltro.

- A de Troia?

- Não, a da Rua Coelho da Rocha. Não soube que a reunião foi antecipada para hoje?

- Qual reunião?

- Não se faça de desentendido, o senhor é da mesma fibra que eu.

- Não faço ideia do que está a falar.

- Nós temos seguido o que tem escrito, não engana ninguém. Vai ser perseguido e proibido em três tempos. O Almada não falou consigo?

- Não.

- Maldito seja! Bem, eu explico-lhe tudo, deixe-me só levar um conhaque para o caminho.

Saímos porta fora daquele local infecto e subimos a Rua do Alecrim. Ele fumava um cigarro na cálida noite tranquila. Ninguém iniciava a conversa até eu intervir.

- Como chegou…

- Simples, você não é propriamente o mestre do disfarce.

Dizendo estas palavras estacou o passo e parou em frente a um BMW 315 Roadster e convidou-me a entrar.

- Vamos, não queremos fazer esperar os nossos amigos escritores, sabe como o ego lhes pode turvar as emoções.

Entrámos no bólide, que se destacava dos restantes carros que se viam nas ruas desertas, não era para menos, aquele modelo tinha acabado de sair. Ele pôs a chave na ignição e arrancou a uma velocidade estonteante.

- O que me tem a dizer desta máquina prodigiosa? Um autentico milagre de modernidade. Sabe a que velocidade consigo chegar nesta beleza?

- Para lhe ser sincero, não sou muito versado nesse assunto.

- Pois – Disse-me colocando um tom mais sério e circunspecto – A HELENA é um grupo ultra-secreto, que junta os maiores literatos nacionais na luta pela liberdade de expressão. Como sabe as novas leis de censura editorial põem em causa a publicação de obras relevantes da nossa sociedade.

- Compreendo a tão importante e basilar missão, mas porque é que escolheram o nome Helena para a vossa organização? Decerto foi pela salvação inalcançável da Rainha Helena, levada a cabo por Páris.

- Em parte, mas o nosso nome refere-se a um acrónico, Homens Eruditos da Liga dos Escritores Não Alinhados.

- São muitos?

- Alguns, não temos limite de cabeças pensantes e imparciais – Dito isto acelerou bruscamente ao passarmos o Miradouro de São Pedro de Alcântara.

- Acha que posso estar em perigo, devido aos meus artigos inofensivos?

- Se acha que escrever sobre aventuras misteriosas de roubos de obras de arte e de caça a animais mitológicos não tem qualquer mácula, então não digo mais nada. A PVDE não vai descansar até proibir tudo o que escreve, onde é que o senhor andava com a cabeça para achar que podia criar pedaços literários surrealistas sem que ninguém o recriminasse?

- Vou ter mais cuidado a partir de agora.

- Não se preocupe, a HELENA vai ajudá-lo.

Já tínhamos passado o Largo do Rato e subíamos em direcção ao Jardim da Estrela, onde acabaríamos por estacionar o carro. Ao sair de tão brilhante viatura, fechei a porta com cuidado.

- Homem, mas isto é o portão da quinta? Modere-se!

- Desculpe – respondi educadamente - Já agora como se chama?

- Álvaro de Campos, mas a minha identidade é secreta, não a pode partilhar com nenhuma alma viva.

- Creio que já li vários poemas seus.

- Não são a literatura mais fascinante que já leu?

- De facto, são, mas também há outros poet…

- Eu sabia que nada se comparava com a minha escrita.

Acendi uma cigarrilha e percorri os passeios ao lado do meu guia, até chegarmos ao famoso prédio da Rua Coelho da Rocha. O Álvaro bateu repetidas vezes na porta principal, num ritmo coordenado e revelador do seu intuito. Logo se ouviu lá de dentro a pergunta: «De onde vem?».

- De Troia – Respondeu o Álvaro prontamente.

A porta de madeira abriu-se de rompante.

- Bem vindo, Álvaro!

- Almada, devias ter falado com o nosso convidado, ele não fazia a mínima ideia da nossa existência.

- Desculpa, mas tive assuntos a tratar, parece que hoje o nosso anfitrião e patrono trouxe convidados internacionais. A nossa demanda está cada vez a crescer mais – Depois vira as atenções para mim e apresenta-se – Eu sou o José de Almada Negreiros, prazer.

- Francisco, é um enorme prazer conhecê-lo.

- Chega de formalidades, vamos subir, o Fernando detesta atrasos – respondeu-me o Almada.

Entrámos para a biblioteca do apartamento num ambiente repleto de fumo e de cálices dos mais variados elixires da eterna juventude, sempre ao som das conversas e do baque incessante das teclas de uma máquina de escrever. Um vulto de costas compunha um poema.

- José, mostra a tua obra de arte! – pedia-lhe um amigo curioso, enquanto o José retirava apressado a folha da máquina para lhe passar.

- O que achas, Vitorino?

- Genial, como já é hábito.

O Álvaro ia-me apresentando aos diversos autores.

- Aqueles dois são o José Régio e o Vitorino Nemésio, sempre muito próximos e com um talento incalculável, mas isso é o apanágio desta sala.

Servi-me de um cálice de Porto e fui lendo as lombadas dos livros daquela pequena biblioteca, tão atafulhada de obras irresistíveis, algumas delas proibidas.

- O que mais gosta de ler, Sr. Francisco? – interrompeu-me um cavalheiro muito bem vestido.

- Os clássicos russos.

- Boa escolha! Sou o Afonso Lopes Vieira, seu conterrâneo.

- Não sabia que também cá estava.

- Temos de nos unir pela liberdade e deixar que as palavras nos guiem, tanto aqui como em Leiria.

- Mas esclareça-me uma coisa, porque é que toda a gente me conhece?

- A nós não nos escapa nada, lemos sempre o que se publica de mais insólito e surreal neste país.

- Pensa mesmo que o que escrevo é absurdo?

- Não me faça rir. Um sujeito deitado no chão de uma marquise numa consulta de Psicologia? A mim afigura-se-me a algo insano.

Desviei o olhar e voltei a contemplar aqueles livros magníficos, até me interromper de novo.

- Mas atenção, eu até aprecio o que escreve.

- Obrigado, eu também admiro muito a sua poesia – Respondi cordialmente.

Alguns convidados declamavam fleumáticos os seus escritos e criações sobre-humanas. Até que o patrono tocou com uma colher no seu cálice de absinto, fazendo o reino de silêncio governar a sala.

- Bem vindos! Pedi-vos que nos reuníssemos hoje, porque recebemos convidados de outras paragens e nações. É com alegria que recebemos de novo um dos fundadores da HELENA, a mente genial que nos deu o nome e o propósito, o nosso Ricardo Reis acabado de regressar do Brasil – estas foram as palavras do imortal Fernando Pessoa.

Uma enorme ovação fez-se sentir pela chegada do médico helénico. Todos queriam apertar a mão ao prestigiado autor, mas antes que os cumprimentos começassem, Pessoa voltou a falar.

- Vindo de Inglaterra, cabe-me apresentar-vos o meu amigo Aleister Crowley, astrólogo e escritor. Todos ainda se lembram da sua fuga à morte, é o mestre da ilusão.

Outro aplauso irrompia pela pequena divisão, enquanto Crowley se ia apresentando aos eruditos portugueses. Mas não era só de literatos lusos que se compunha aquele grupo excêntrico. Reparei num eterno jovem galante, de vestes ricas e ultrapassadas, que se evidenciava de sobremaneira. Pelo sotaque pude perceber que era francófono. Fiquei curioso por saber de quem se tratava.

- Boa noite! Chamo-me Francisco – Disse-lhe eu, estendendo a mão.

- Chevalier de Pas, prazer – respondeu-me de forma presunçosa o nobre francês.

- Como chegou até cá?

- Sou amigo de infância do Fernando Pessoa e o Senhor?

- Para lhe ser sincero, nem sei bem o que faço aqui.

- Deixe-me adivinhar, é poeta.

- Sim!

Retirei-me e dei de caras com Ricardo Reis

- O nosso novo literato, como tem passado?

- Boa noite, nem sabe como admiro os seus poemas. Até há umas horas não sabia da existência desta sociedade tão selecta que o Senhor ajudou a fundar.

- Obrigado, precisávamos de um refugio, depois das criticas infames à revista Orpheu, eu só dei o mote. E agora, mais do que nunca, somos uma peça fulcral para a liberdade criativa das mentes mais rebeldes deste país.

- Que conquistas já alcançaram?

- Tantas que a História não pode quantificar. Por falar nisso, sei que também é um apaixonado pelo passado como eu. Qual é a época a que mais se dedica?

- A Idade Média.

- Eu prefiro a Antiguidade Clássica.

O Almada Negreiros pigarreou e levantou a voz para iniciar o seu fulgurante discurso.

- Não é só de conversas cruzadas e copos cheios de vinho que se faz a reunião de hoje. No ano passado assistimos à criação do semanário artístico e literário “O Diabo”, onde alguns de nós colaboramos, que publica tudo, sem quaisquer amarras politicas e religiosas, mas não sabemos quando poderá ser fechado e proibido. Agora, temos de continuar esse percurso, criando pseudónimos e publicando livros, secretamente lançados para um mercado paralelo. Para termos toda a liberdade de que precisamos e editar tudo o que nos der na gana, sem termos de prestar contas a ninguém, o Álvaro de Campos arranjou-nos algumas máquinas de escrever, estas são todas vossas, mas só para aqueles que as queiram usar em prol do bem maior, a arte.

O espanto foi geral, eram máquinas de escrever Remington novas em folha.

E assim, a noite foi-se desenrolando com conversas, taças de vermute e o insistente matraquear das teclas. Fui ter com o anfitrião para me despedir e agradecer o serão.

- Queria agradecer a sua arte e mestria, que tanto me fascinaram e cativaram a ser melhor na nobre tarefa de escrever.

- Obrigado, Francisco. Apesar de poder achar que algum artigo ou poema não é bom só porque alguém lhe disse isso, não desista e defenda cada palavra sua impressa no papel.

- Isso é um conselho muito audacioso.

- Para censura já nos basta a que temos hoje.

Agradeci-lhe, peguei no meu sobretudo e saí do apartamento, apesar dos apelos de Aleister Crowley para me prever o futuro.

Decidi atravessar o Jardim da Estrela, iluminado pelos candeeiros e pirilampos. Ao longe consegui vislumbrar uma rapariga sentada num banco a ler. Aproximei-me e perguntei em que obra se debruçava.

- Le Grand Meaulnes, de Alain-Fournier.

- Como adoro esse livro, apesar da tristeza que transporta.

- Eu gosto dessa melancolia, ensina-me a ver o duro mundo da realidade. A magia que exalta é a dessa inconstante da vida, o amor.

Não sabia o que dizer, era exactamente o que sentia. Sentei-me junto a esta musa inspiradora e conversei até ser dia, por entre passeios, divagações, sorrisos e poemas.

- Está a ficar tarde, eu levo-te a casa – Dizia eu com carinho e à-vontade perante um vazio, já não sentia a sua mão no meu braço, nem o calor quando me segredava ao ouvido.

Tinha partido, como a Primavera se preparava para nos deixar em breve. Todas as paixões e sonhos acabam por nos abandonar com os anos e as saudades do divino passado heroico. (Foto: parte da obra "A Blusa Azul", 1925-28, Adriano Sousa Lopes)


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