José Travaços Santos

Património

“Encamisada”: reminiscência dos Círios Estremenhos (II)

Se procurarmos o significado de encamisada vamos encontrar vários desde “assalto nocturno em que soldados se disfarçavam envergando camisões (camisas que cobriam todo o corpo)” até “mascarada” e “manifestação popular nocturna, religiosa ou profana”. E o sentido da encamisada rebolariense alicerçou-se exactamente na “manifestação religiosa popular nocturna”.

De qualquer maneira trata-se de um círio nocturno e localizado, que tem partida e chegada no mesmo santuário e a duração de um serão de algumas horas apenas.

Mas porque o termo se confunde com descamisada, há quem pergunte se não tem nada a ver com o tirar do folhelho que envolve a maçaroca do milho, que tem aquela designação na nossa região e a que no norte do nosso País se chama desfolhada ou esfolhada. Como se vê, são actos distintos.

Um dos aspectos distintivos da Estremadura são exactamente os círios, peregrinações que se dirigem a determinados santuários, tantas vezes percorrendo-se largas distâncias, em tempos passados caminhando-se dias ora a pé ora em animais de carga e em carros de bois ou carroças de muares, transportando-se numa berlinda uma imagem venerada. Enquanto no círio rebolariense e noutros círios as crianças que deitam as loas envergam roupagens e o distintivo dos anjos, as asas, em vários, como é o caso do círio da Nazaré à Senhora da Vitória, que continua a realizar-se anualmente na quinta-feira da Ascensão (e que é digno de ver-se), as crianças envergam roupagens romanas.

Muitos dos nossos círios tinham por destino o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio, como o da Prata Grande que vem das terras saloias da Estremadura e como aquele que em meados do século XIX foi de Leiria à Senhora da Nazaré pela aflição em que estavam os agricultores ao verem as suas vinhas destroçadas pelas pragas que então as atacavam. Este círio leiriense é soberbamente descrito por Tito Larcher na sua obra sobre o santuário de Nossa Senhora da Conceição, reproduzindo inclusivamente as loas que foram feitas pelo poeta das Cortes António Xavier Rodrigues Cordeiro (tio de Afonso Lopes Vieira).

Frequentemente os círios eram acompanhados por gaitas de foles, instrumento usual na Estremadura.

Ora a propósito da encamisada rebolariense, transcrevo hoje um programa da Festa em honra de Santo António, que se realizou na Rebolaria em 2, 3 e 4 de Agosto de 1924, que inclui a encamisada. Foi-me amavelmente facultado há anos pelo Sr. José Monteiro Jordão (José Ruivo): “Grandes Festejos na Rebolaria (Concelho da Batalha) = Esta festa é das mais antigas que se faz neste concelho, tendo um grupo de rapazes organizado uma comissão para levar a efeito este ano uma festa mais importante que os mais anos anteriores. A comissão pretende levar a efeito a procissão da encamisada, velha tradição desta festa.

“Dia 2 – às 12 horas – Salva de 21 tiros, sendo ao mesmo tempo hasteada no edifício da Igreja a bandeira da festa.

Às 20 horas – Chegada da Filarmónica dos Marrazes (já não existia a da Batalha).

Às 21 horas – Salva de 60 morteiros, tocando no coreto a Filarmónica. Em seguida será colocada no templo da Igreja, um lindíssimo busto de madeira, feito pelo exímio artista neste género, José Vieira Jordão.

Às 22 horas – Procissão da encamisada que terá um êxito extraordinário, por motivo de já há muitos anos se não fazer, cantando os anjos durante o percurso nos lugares de Forneiros e Casal do Alho.

Às 23 horas – Será queimado um vistoso fogo à moda do Minho, iluminação à Veneziana, etc., etc..

Dia 3 – às 6 horas – Alvorada com uma salva de 60 morteiros, tocando a Filarmónica várias peças.

Às 9 horas – Chegada da Filarmónica do Arnal à Vila da Batalha, onde a Comissão das festas a espera, seguindo depois para a Rebolaria.

Às 12 horas, Missa e grande instrumental, pregando ao Evangelho um distinto orador do distrito.

Às 13 horas – Procissão e em seguida venda de fogaças.

Às 17 horas – Concerto pelas filarmónicas (Dos Marrazes e do Arnal).

Às 22 horas – Deslumbrante fogo de artifício, seguido de fogo À moda do Minho, executado pelo artista José Varino Júnior, do Casal do Relvas – Iluminação à Veneziana, etc..

Dia 4 – Às 6 horas – Alvorada com uma salva de 30 morteiros.

Às 8 horas – Missa rezada pelo Exm.º Rev Padre Jacinto.

Às 12 horas – Missa e grande instrumental.

Às 15 horas – Música, bailes populares, etc., etc..

Às 17 horas – Cavalgadas, havendo diverso prémios.

Durante estes festejos serão deitados balões aeróstatos, haverá bailes, cantos populares e outros divertimentos. A comissão tem o máximo empenho em que o programa se cumpra. O arraial estará lindamente ornamentado.

A COMISSÃO – José Vieira Jordão, Miguel Vieira Grosso, Luís da Silva Bagagem Júnior, Luís Vieira Ruivo, António Vieira Jordão, Luís da Silva Bagagem, José da Silva Nazário, José da Silva Pinhal, José Pinheiro Jordão.

Só quero acrescentar que na altura era pároco da Batalha o Rev.º Padre Dr. Joaquim Coelho Pereira, natural da Golpilheira onde nasceu a 11 de Agosto de 1872, grande figura da Diocese de Leiria, sacerdote culto e íntegro, falecido na Batalha em 7 de Dezembro de 1929, e seu coadjutor o Rev.º Padre Jacinto Nunes Martins, de que o programa fala, natural do Senhor Jesus do Carvalhal de Óbidos, também uma figura muito conceituada e estimada, falecido na Batalha em 24 de Junho de 1926.

A fotografia é a da partida da “Encamisada”, em 6 de Junho de 2003, do adro de Santo António, vendo-se Joaquim Moreira Ruivo, actual ensaiador dos anjos, e ao fundo Armindo Vieira Jordão, impulsionador do renascimento desta expressiva manifestação da Fé e da Cultura do nosso Povo.

José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (191)

 

Obras consultadas:

“Encyclopedia Portugueza Illustrada”, dir. do Professor Maximiano Lemos; “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”; “Tradições Musicais da Estremadura”, do Dr. José Alberto Sardinha; “O Clero da Diocese de Leiria e o Seu Passado”, do Padre José Carreira.

Divisão a divisão, a Casa da Cultura do Rosas do Lena

A divisão da entrada no antigo palheiro transformado numa Casa de Cultura, mostra, entre muitos outros valores, uma belíssima miniatura, executada e oferecida por Carlos Pinho Ceiça, do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, uma gravura do Mosteiro do século XIX e um quadro da pintora Irene Gomes. Por esta divisão tem-se acesso à Biblioteca e ao piso superior, piso que visitaremos no próximo mês.

 


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