José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (190)

A “Encamisada”, reminiscência dos Círios Estremenhos e acto cultural de relevo

Volto à “Encamisada” rebolariense, que se deve inscrever entre as manifestações culturais do nosso Povo de maior originalidade e de indiscutível espiritualidade, servindo-me da notícia, que transcrevo, do jornal “O Districto de Leiria”, nº 750, de 8 de Agosto de 1896, que me chegou às mãos por amabilidade do distinto Director do “Notícias de Colmeias”, Dr. Joaquim Alves dos Santos, que tem pesquisado a Imprensa leiriense dos séculos XIX (em que se publicam os primeiros jornais da nossa capital de distrito e da região) e XX.

Tive porém de emendar a notícia quanto a uma data que não está correcta, pois a primitiva capela da Rebolaria, da invocação de Santo António, foi construída em 1643 e não em 1748. Em “O Couseiro”, no século XVII em que se escreve esse notável documento sobre a história da nossa Diocese, é 1643 o ano anotado.

Eis a notícia: “Festa na Rebolaria – Escrevem-nos da Batalha: no lugar da Rebolaria, freguesia da Batalha, teve lugar no dia 2 (presumo que de Agosto), domingo último, a popular festa ao santo português e glorioso S. António, que se venera ali desde o ano de 1748 (aqui está o erro) em que foi fundada a respectiva capela. (Repito o ano correcto é 1643).

Foram juízes dos festejos os Srs. Manuel de Sousa Ligeiro, Manuel Carreira Marta (ou Marto?) e Luís Coelho, coadjuvados activamente pela mocidade daquele lugar e circunvizinhança José Vieira Ruivo, Luís Francisco Coelho Bezugo, António da Silva Rei, José Catarino, Maria Ribeiro, Maria da Conceição Marta (ou Marto?), Joana do Rosário Alfacinha, Emília da Conceição, Emília Matias e outros que apresentaram quatro andores perfeitamente repletos de mimosos bolos e outros variados géneros alimentícios, que tudo foi vendido em leilão produzindo 71 195 reis.

Foi orador o rev.º prior da dita freguesia dr. Cunhal (Padre Dr. Luís Henriques Cunhal, natural do concelho de Seia, pároco da Batalha de 1880 a 1898. Segundo consta era tio-avô de Álvaro Cunhal, o conhecido político do século XX). Depois da missa transitou a solene procissão pelo adro da capela e centro do lugar, que se achava vistosamente embandeirado. No mesmo adro, em frente de um mastro muito alto e do coreto da filarmónica havia um bonito repucho.

À tarde houve cavalhadas (corridas de frangos), sendo distribuídos numerosos frangões. À noite houve iluminação com balões venezianos e esplêndido jardim de fogo fornecido pelo artista Bernardino dos Pinheiros e seu genro Alfredo Barateiro, subindo ao ar um vistoso balão.

Durante os festejos tocou a Filarmónica Batalhense o seu variado reportório. Sabia, caro leitor, que houve uma Filarmónica na nossa Vila, infelizmente com duração de poucos anos?).

Na véspera os festeiros e mais devotos percorreram em círio com bandeira e mais insígnias os lugares a que pertence a dita capela, Rebolaria, Forneiros e Casal do Alho, acompanhados da dita filarmónica e de dois anjos que recitavam loas da vida do glorioso santo, regressando à capela onde foi cantada a ladainha.

Foi enfim uma festa pomposa e por isso digna de menção”.

Nesta notícia de 1896, publicada no jornal leiriense “O Districto de Leiria”, há informações de ordem histórica, religiosa, social e etnográfica de indiscutível interesse. Registam-se os costumes nos finais do século XIX, nomeiam-se pessoas cujos apelidos se continuam na actualidade, dá-se conta do círio “a Encamisada” e da “corrida de frangos” habitual nas nossas festas e que eu creio ter tido o seu antecedente no “jogo do estafermo” usual nos meios da nobreza ainda no século XVIII, falava-se do pároco de então, Padre Dr. Luís Henriques Cunhal, e no fogo de artifício dos conhecidos fogueteiros dos Pinheiros, Bernardino e Alfredo Barateiro, e, com especial interesse, da Filarmónica Batalhense, que existiu pelos finais do século XIX e princípio do XX, tendo desaparecido depois de curta existência.”

Dos antigos componentes da filarmónica ainda conheci vários na minha meninice e na minha juventude. Já velhotes, recordavam-na sempre com a lagrimita ao canto do olho. Ora, a propósito da Filarmónica não resisto a transcrever do livro de memórias de Orlando Saraiva Mendes Antunes, “Memórias de uma Vida Atribulada”, embora resumindo, este episódio descrito pelo autor:

“Na sua pequena oficina de canteiro, por detrás da Misericórdia, trabalhava por conta própria, fazendo gogós (pequenos trabalhos de cantaria), para serem vendidos aos visitantes, nas lojas de artesanato, um homem mais conhecido pelo “Carantiga” (…). Ora esse senhor canteiro tinha sido membro da antiga e desmantelada filarmónica batalhense (…). Nessa pequena oficina, pendurado na parede, tinha o Carantiga o seu famoso cornetim, sempre muito brilhante do polimento semanal que lhe dava. Como eu andava a aprender música e precisava de praticar com um instrumento, lembrei-me de pedir emprestada essa “jóia”, outrora sonante. Delicadamente dirigi-me a ele e disse: - Ó senhor José, queria pedir-lhe um favor… - Diz lá menino, diz lá… - Ando a aprender música e queria praticar num instrumento. Como o senhor tem ali aquele pendurado na parede, podia emprestar-mo… - Olha e escuta bem o que te vou dizer: para mim ele está acima de tudo. É sagrado! Nunca ninguém lhe tocou ou tocará, a não ser eu próprio. Só quando eu morrer”.

A fotografia que se publica e reproduz do adro de Santo António, na Rebolaria, em dia de festa, data de 1899, três anos depois da notícia de “O Districto de Leiria”. Foi-me gentilmente cedida, com outras três da Santíssima Trindade do mesmo ano, pela família batalhense Azevedo Mendes da Costa, família que recordo com um sentimento de saudade e, simultaneamente, de amizade e consideração. Os seus descendentes dispersaram-se pelo Porto, por Torres Novas e pelo Brasil. Que será feito deles?

Divisão a divisão, a Casa da Cultura do Rosas do Lena

Começamos a nossa visita ao interior pela divisão onde estão alguns dos principais troféus do agrupamento e a biblioteca etnográfica, rara, senão única, no nosso País. Entre as suas obras, à disposição dos componentes do agrupamento e dos estudiosos, neste caso para consulta programada no local, contam-se os dez volumes da “Etnografia Portuguesa” do Professor Doutor José Leite de Vasconcelos, vários números da “Revista Lusitana”, “Signum Salomanis – A Figa, a Barba em Portugal”, “Nomenclatura Numismática”, todos do Prof. Leite de Vasconcelos, “Etnografia Portuguesa” de Rocha Peixoto, “Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnografia” (vários volumes)”, “Música Popular Portuguesa” do Professor Armando Leça, “Danças Populares Portuguesas” de Tomás Ribas, “Guia de Recolhas de Danças populares”, também de Tomás Ribas, “Os Arados Portugueses e as suas Prováveis origens” de Jorge Dias, “Danças portuguesas” e “Folclore” do Dr. Pedro Homem de Melo, “Desenho Etnográfico” de Fernando Galhano (2 volumes), “Instrumentos Musicais Populares Portugueses” de Ernesto Veiga de Oliveira, “Cancioneiro da Região de Leiria” de António Oleiro, “Cancioneiro de Entre Mar e Serra da Alta Estremadura” do Professor José Ribeiro de Sousa, “Tradições Musicais da Estremadura” do Dr. José Alberto Sardinha, entre centenas doutras obras destes e doutros autores consagrados. Mas a par das obras dedicadas à Etnografia, tem armários com outras sobre História, Agricultura e Literatura.

 


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