Francisco Oliveira Simões

Crónicas do passado

Elégias do tabelião

Hoje vi algo assombroso, assaz, aterrador e mordaz. Um ato tão diferente e maledicente, que ninguém se lembraria de o fazer. Depois de o contar, espero que consigam dormir sem pesadelos. O que tenho para vos dizer é… Bem, já não me lembro, mas sei que seria uma história interessante. Agora já não tenho artigo para apresentar. Do que irei falar este mês? Só se vos narrar a epopeia celestial e aventurosa de um tabelião na corte do Rei D. Dinis.

Estávamos numa manhã de nevoeiro, no ano de Nosso Senhor de 1295, quando um dos tabeliões de El-Rei acordava para mais um dia de intensa atividade. Levantou-se, vestiu-se e preparou a tinta, os pergaminhos e a pena bem afiada. Dirigiu-se ao escritório de Sua Alteza. Bateu e regressou para o corredor do castelo, mais uma vez, não tinha qualquer trabalho a realizar.

Esperava que fosse mais interessante. Peço as minhas mais encarecidas desculpas, caros leitores. Mas tenho aqui algo que promete ser mais animador. Vou relatar a incrível aventura de um jornalista na redação de uma revista cultural portuguesa.

Lisboa brotava de vida cultural e intelectual. Festivais de cinema, lançamentos de livros, concertos de jazz e palestras de elevado grau de erudição e sabedoria. Jaime estava sentado na sua cadeira de escritório, num balanço ritmado. Buscava ideias para escrever um artigo que captasse a atenção dos hipsters e dos geeks. De repente, recebe um telefonema do Director daquela revista literária, dramatúrgica, cinéfila e cultural de renome. Pedia-lhe que comparecesse no seu gabinete. Jaime sentou-se, uma vez mais, em frente Do chefe.

- Jaime, há quanto tempo trabalha aqui na revista Magazine Fanzine?

- Há quatro meses.

- É o nosso mais antigo funcionário, que honra. Estive a fazer contas e vamos ter de despedir. Temos de dar lugar a sangue novo.

- Mas eu só tenho vinte cinco anos.

- Pois, já não vai para novo.

- É capaz de ter razão.

E foi assim que o pobre Jaime perdeu o emprego de uma vida.

Pensei que seria uma história com mais sumo, mas, infelizmente, já terminou. Não são as elégias mais empolgantes deste século, mas foi o que o vento me trouxe à minha secretária. E com os vendavais que se têm feito sentir por estes dias, já foi uma sorte não ter levado com uma árvore em cima. Espero que estes episódios desoladores, mas tão ricos de emoções e paixões fortes, não tenham desgostado quem os ler e contemplar.


NESTA SECÇÃO

O segredo

Muitas vezes perguntam-me qual é o segredo. A mim e ao ‘mister’ que me acompanha há 7 anos,...

Aproxima-se o verão

Aproxima-se mais um verão e os receios da seca já começaram, com fundamento, atendendo ao ní...

Os combatentes – esses velhos caquéticos

Chegou-nos ao conhecimento haver por aí alguém que, referindo-se aos Combatentes, terá desab...