José Travaços Santos

Baú da Memória

De novo o Padre António Vieira

A ignomínia do acto que vandalizou a estátua do Padre António Vieira, a maior figura do Portugal seiscentista e uma das maiores da História da Humanidade, leva-me a retomar o tema e a sublinhar o que o caracteriza ao longo de uma vida de quase noventa anos, servindo sempre as causas mais nobres e de profundo sentido humanista e humanitário.

A insistência no tema também nasce da impressão que tenho de que a maior parte dos Portugueses ainda não se apercebeu da sua gravidade e do perigoso surgimento de novos extremismos que nos querem impor, antidemocraticamente, as suas ideias. À força e com violência.

O padre António Vieira, não obstante o perigo a que se expôs, teve a coragem de se opor à terrível e poderosa Inquisição, o que lhe acarretou um ano de prisão numa das tenebrosas masmorras dessa instituição de má memória e não sei quantos mais em residência fixa num convento da Ordem a que pertencia, a Companhia de Jesus, tão injustamente vilipendiada quase até ao nosso tempo.

No período terrivelmente difícil que se seguiu à gloriosa restauração da Independência da nossa Pátria, a partir de 1640, foi um notabilíssimo embaixador de Portugal na Europa, defendendo sempre, esforçada e inteligentemente a nossa liberdade, não obstante a influência internacional da então potência que era a Espanha.

No Brasil defendeu acerrimamente a causa dos Índios e foi, igualmente, um corajoso defensor da aproximação com os Cristãos-Novos, com quem estabeleceu relações amigáveis.

Aos poderosos mandou recados nos seus sermões. Não obstante, o Rei de Portugal restaurado, D. João IV, teve por ele particular estima e aceitou muitos dos seus conselhos, o que infelizmente já não aconteceu nos dois reinados seguintes (D. Afonso VI/Conde de Castelo Melhor e D. Pedro II).

Foi figura-mór das Letras no seu tempo e continua a ser o expoente do Humanismo português.

Pois é este o Homem de incomensurável grandeza, cuja memória foi agora enxovalhada ante a quase indiferença dos homens do nosso tempo.

Em que terrível tempo vivemos!

A imagem fui buscá-la, com a devida vénia, ao notável álbum da Exposição “Padre António Vieira da Companhia de Jesus, Pregador de Sua Alteza. 1608-1697”. Exposição em 1997 e 1998, na Biblioteca Nacional. Pintura da Escola Portuguesa, do início do século XVIII.


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