José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (220)

D. Manuel I

Venturoso

porque colhi a seara

que outro semeou

mas desventurado

porque a História não me consagrou

o monarca

para que a ventura

me fadou.

Pela crueldade com que tratei

o Povo Eleito

sujeito me tornei

da minha própria lei.

Sem magnanimidade

não pude ser um grande rei

e nem por sombras fui

semeador de searas

como aquela que ceifei.

 

 

Na realidade, D. Manuel I, que foi, em muitos aspectos, um soberano empreendedor e cumpridor das exigências do seu cargo, desfavoreceu muito a sua imagem quando, embalado na onda que vinha de Espanha, da parte dos seus congéneres castelhanos, os Reis Católicos, permitiu a perseguição aos Judeus e a sua expulsão de Portugal, o que para além da crueldade do acto desfalcou o nosso País de parte importante da sua população mais activa.

Contudo, noutros aspectos a sua acção pode ser merecedora dos maiores encómios.

A Batalha ficou a dever-lhe a sua elevação a vila em Março de 1500 e a demarcação do seu espaço administrativo e a subsequente oferta da caixa de pesos, com que obsequiou os municípios, tão necessária à economia local, um artístico exemplar que a Câmara conseguiu salvar da habitual destruição dos valores históricos e que está em exposição no Museu da Comunidade Concelhia. É curioso referir que além da peça original, devidamente resguardada embora visível, o Museu tem uma réplica perfeitíssima que pode ser manuseada pelos visitantes.

O pelourinho quinhentista, cuja imagem em gravura da Palhares do início do século XIX torno a publicar, como ilustração dos apontamentos deste mês, e repito que este valiosíssimo e expressivo monumento foi destruído nos anos sessenta do também século XIX numa vaga idêntica, de estupidez e de ignorância, à que vem tentando delapidar os mais significativos marcos da nossa história, tem hoje uma preciosa réplica, embora com alguma alterações no cimo indecifrável na gravura, da autoria do saudoso Mestre Alfredo Neto Ribeiro, iniciativa que foi da Câmara Municipal, então presidida por António Lucas.

Mas a D. Manuel I ficaram a dever-se a continuidade das obras no Mosteiro, sendo necessário desfazer a ideia de que foi ele que retirou mestres e operários do nosso monumento para os enviar para os Jerónimos, e particular apoio a arquitectos como Mateus Fernandes e Boitaca (Boytac).

A Mateus Fernandes concede a honra póstuma, honra máxima à sua memória mandando sepultá-lo no real mosteiro em sítio destacável, e Boitaca confirmando a concessão do grau de cavaleiro, o que quer dizer da elevação dum mestre de pedrarias à nobreza.

O nome do Rei associado ao estilo que tudo leva a crer ter criado por Mateus Fernandes e continuado, entre outros, pelo genro deste, o Mestre Boitaca, é assim um acto de inteira justiça.

E já que falamos de Mateus Fernandes e de Boitaca, que assinava em documentos da sua lavra Boytac, tudo leva a crer que aquele teria nascido na Covilhã, assim sendo considerado naquela lindíssima cidade da Beira Interior como uma dos seus filhos mais ilustres. Já de Boitaca se desconhece a terra da naturalidade e o País e, inclusivamente, qual seria o seu nome próprio. Nada há a provar que fosse Diogo.

Sobre este assunto, como a tudo que diz respeito à obra monumental do Mosteiro, é essencial ler o livro do muito ilustre Professor Doutor Saul António Gomes “VÉSPERAS BATALHINAS – Estudos de História de Arte”, edição na Colecção História e Arte, das Edições Magno.

Mestre Boytac foi sepultado na Igreja de Santa Maria-a-Velha, no terreiro atrás do Mosteiro. Sepultura profanada no século XX quando estupidamente se arrasou a primitiva igreja batalhense. Apenas se conseguiu salvar parte da laje da sua sepultura, onde também estava enterrada sua mulher Isabel Guilherme, filha de Mestre Mateus Fernandes e neta de arquitectos também.

Infelizmente no nosso tempo isto continua a acontecer, ora por simples, mas indesculpável, desleixo ora por premeditada acção, o que é qualquer de tenebroso e de doentio, de indivíduos que, se forem portugueses, estão a destruir as memórias do seu Povo e a ultrajar gratuitamente os seus antepassados. O fanatismo ensandece, de verdade, quem se lhe subordina.

E já que volto sempre ao aliciante tema do património, seria preferível dizer dos patrimónios, peço às autoridades competentes que resolvam o problema da deficientíssima iluminação do espaço abrangente do Mosteiro, em grande parte às escuras, e do próprio monumento. Meu agradável passeio quase diário, espairecedor das horas que passo agarrado à velha máquina de escrever, já deixei de o fazer a horas nocturnas, impossibilitado que fico de ver o caminho.

 

O Monumento aos mortos em Campos de Batalha

 

Foi muito feliz a ideia de lembrar os nossos militares mortos na Grande Guerra e na Guerra Colonial num monumento original e muito significativo não obstante a sua aparente simplicidade. Obra da arquitecta Patrícia Silva Soares, é digna de estar naquele espaço, ia a dizer quase sagrado, do largo do Condestável. Lembro que nesse espaço também está, evidentemente além da estátua equestre de D. Nuno Álvares Pereira, um expressivo monumento em memória de D. João I, oferecido pelos oficiais da Marinha de Guerra que frequentaram, há longos anos, o curso que tinha como patrono a figura do Mestre de Avis.

O monumento, agora inaugurado, resultou duma louvável iniciativa da Liga dos Combatentes, com o patrocínio da Câmara Municipal da Batalha. A autora, arquitecta Patrícia Soares, pertence ao quadro da Direcção Geral do Património Cultural.

 

 

 

Lar da Misericórdia nas Brancas

 

Trata-se de uma iniciativa da Nossa Casa da Misericórdia, presidida pelo Dr. Carlos Agostinho Monteiro, a merecer-nos especial referência. Fazia falta e é mais um apoio, além do Centro Hospitalar vizinho, a quem na velhice ou na doença precisa duma assistência permanente.

Já houve quem pensasse num lar na Vila e creio que é ideia que não se deve abandonar. É este o único recurso no nosso tempo para quem já não pode tomar conta de si próprio. Um assunto que precisa de muita reflexão.


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