Joana Magalhães

Pestanas que falam

A cultura do queixume

Português que é bom português tem de se queixar. Tem de se queixar de tudo: do trabalho, da falta de trabalho, da mulher/marido, dos filhos e do dinheiro. E queixa-se muito. No trabalho queixa-se da vida em casa e em casa queixa-se da vida no trabalho. É quase como um ritual de passagem que faz de um português um bom português. Porque se anda feliz e não se queixa, não está bom da cabeça, claro! É uma cultura que se instalou numa guerra diária do "quem tem a vida mais difícil", sim, porque não é só queixar-se mas sim ser aquele que se queixa mais e que fica sempre por cima na lista de queixas diárias para no fim ouvir aquele reconfortante "realmente, estou a queixar-me mas tu é que estás mal". Ahh... Quantas queixas fazemos nós por dia? E quantas vezes ouvimos nós queixas?

Outra coisa que faz parte desta cultura do queixume é que toda a gente gosta de se queixar mas ninguém gosta de ouvir queixas. Todos adoramos estar uma quantidade infindável de tempo a queixarmo-nos da nossa "vida miserável" mas assim que a nossa vítima do queixume começar a desabafar... Ala que se faz tarde! Ninguém gosta de ouvir queixas, isso é certo, mas alguém tem que as ouvir. Na verdade não sei o que será pior, se ter de ouvir as queixas ou se ter de ouvir as inabaláveis frases feitas: "tens de ter paciência" ou "a vida é mesmo assim".

Ainda assim, há algo bom a retirar desta norma do dia-a-dia português, é que só se queixa quem não está satisfeito o que por lógica significa que não se deixa ficar com aquilo que a vida lhe traz mas luta contra esse destino. Essa será a (única) parte boa, é quando do queixume se parte para a ação, isto porque o queixume também tem um limite e das duas umas, ou se farta quem fala, ou se farta quem ouve e depois disso a vida muda. E a mudança é boa, especialmente se nos queixamos. Porque, se não, de que raio valeria gastar o nosso latim com queixas?


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