Francisco Oliveira Simões

Historiador

Convites irrecusáveis

Acho que nunca vos contei que adoro viajar no tempo. Como é que se viaja no tempo? Com um mapa cronológico, ora essa. Nada de mais, se tivermos sentido de orientação e um pouco de precaução tudo corre bem.

A minha última viagem foi ao Reino de Leão, durante o século X, mas não estive lá durante muito tempo. Parece que havia uma guerra-civil, um evento que não é dos meus prediletos, se ainda fosse um festival de música ou uma boa peça de teatro. Para essas festividades temos sempre de levar uma espada condigna e um escudo, para além da cota de malha e do elmo, artigos que não disponho neste momento, porque deixei-os no ferreiro a arranjar. Já se sabe que esses festivais de música são muito aguerridos, temos de ter sempre a lâmina bem afiada.

Falando de epopeias mais interessantes, fui passar uma temporada a Londres, no ano de 1935. Houve várias festas a que fui convidado. Por enquanto, conto apenas uma que achei magnifica, principalmente por causa da companhia. Estavam reunidos no Hotel Savoy várias personalidades do mundo literário inglês. Evelyn Waugh era o anfitrião, andando de um lado para o outro a apresentar os seus conhecidos e amigos.

- O Senhor é novo nos nossos cocktails?

- É a primeira vez que fui convidado, sou o Francisco.

- Ah! Também é historiador e poeta, não é verdade?

- Sim, mas sempre tive o sonho de ser pintor.

- Bem-vindo ao clube, eu já só me contento em escrever.

Foi-me levando por entre os convidados, até nos depararmos com um rapaz da nossa idade, entre tantas mentes jovens e brilhantes.

- Este é o Henry Graham Greene, meu saudoso colega de História em Oxford, jornalista e escritor.

O que mais me fascinava naquela festa faustosa era a jovialidade dos autores, parecia uma recriação da obra “Vile Bodies”, de Waugh. Será que esse livro era apenas a materialização da realidade? Desde esse encontro tenho vindo a ser convidado para mais cocktails e saraus, mas o tempo é escasso.

Ainda há um mês recebi uma carta de D. Pedro, o Condestável, Rei de Aragão, para participar com ele na defesa da independência daquele reino. Pelo que entendi tratava-se de um conflito muito pitoresco e heroico, a que não deveria faltar. Infelizmente declinei a demanda, porque já tinha combinado uma noite de cartas em casa de Fiodor Dostoievski. Não é para me gabar, mas ganho-lhe sempre.

O problema destas viagens é que causam grandes anacronismos, a que temos de ter cuidado. Não convém estarmos a falar com Fontes Pereira de Melo sobre as enchentes de pessoas que entopem o metro de Lisboa. Ainda há pouco tempo tive o descuido de fazer uns apontamentos com recurso a caneta e papel, mesmo em frente a Fernão Lopes. Ficou estupefacto e perguntou-me logo onde havia desencantado aquele portento de modernidade.

Por fim, gostaria de deixar alguns conselhos básicos para futuras viagens.

Levem um florete, caso partam para épocas mais recuadas. Afastem-se das florestas, costumam conter um vasto leque de gatunos e facínoras. Usem sempre vestuário de acordo com a época, mesmo que não seja o mais confortável. Aproveitem e desfrutem do momento, contemplem monumentos desaparecidos e gente desvanecida. Aprendam novas línguas, até as mortas, nunca se sabe quando vão dar jeito. Façam novas amizades com os nativos de cada era. Troquem experiências e pontos de vista.

Há uns anos tive uma agradável conversa com Júlio César sobre a questão sempre problemática da pena de morte, que sou completamente contra. Por incrível que pareça, César, não é da mesma opinião. Tudo acabou comigo a visitar uns leões agressivos, mas nessa altura deu jeito o tal florete de que vos falei.

 


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