Francisco André Santos

Diacrónicas

Confissões de um lavador de pratos

Gosto do espírito aventureiro de Orwell. Além das histórias políticas, inspira-me a mundanidade que traz tanto à guerra civil Espanhola como o seu anterior relato de viver em pobreza. “Na Penúria em Paris e Londres” descreve o dia-a-dia da pobreza urbana, que vai desde os maus empregadores do setor Parisiense de Horeca (Hospitalidade-restauração-cafés) aos perigosos albergues de Londres. Nesta minha transição laboral, Orwell, na sua versão online gratuita em Português do Brasil, é novamente profético: “Não têm como escapar dessa vida, pois não conseguem economizar um tostão do salário, e as sessenta a cem horas de trabalho semanais não lhes deixam tempo para aprender outra coisa. O melhor que podem esperar é achar um emprego um pouco mais leve, como guarda-noturno ou encarregado de banheiro.” Para minha sorte, só precisava de 26 horas, e ainda que incertas, não me prestavam o prazer de aprender mais alguma coisa.

No meio da principal rua noctívaga de Roterdão, sento-me com os hóspedes do hostel em que recentemente comecei o meu trabalho de guarda-noturno. Em principio usaram um cartão de crédito para completar a sua reserva. Confirmo que as coffee-shops já fecharam, e, por volta das 2 da manhã, sirvo o café latte ao “Ché”, que está numa longa-estadia de coração partido. Mas, felizmente, dança Elvis como dança Hendrix. Uma certa distanciação de problemas à nossa volta e que ignoram virtudes e saberes que vão desde “a menina do bar” ao “presidente disto tudo”, de dentro e de fora do aquário.

Os únicos que trazem alguma normalidade, além do vendedor de “charlie” com aquela boina preta de cabedal, são os colegas e amigos da Horeca que dividem as suas outras responsabilidades com o fim-de-semana que passam para a segunda e terça-feira em que deixam de se distinguir dos nauseabundos. Afinal, dizem os estudos que andamos mais stressados que médicos e isso justifica-se. Do lado de fora deste bem iluminado aquário, passam todos os que vivem em dificuldade. Estilo “Lado Errado da Noite”. Aquelas tristes e embriagadas juras de amor que todos vivemos fazem agora parte do meu dia-a-dia.

Já me referido como resultado do trabalho da “policia fascista” nas últimas décadas, sobra do porto gente sem rumo, como sobram prostitutas no Cais do Sodré. Um Somali que se afirma refugiado sem estatuto; uma mulher de aspeto cavernoso que sofreu algum tipo de queimaduras na cara; o Jaffar, que a par do novo gorro cor-de-rosa, traz a noticia de que tem que trabalhar 2 dias por semana para o subsidio; um rapaz de origem Cabo-Verdiana, que caminha uma barriga impávida, enquanto caça pontas de cigarros. Já o “Pirata”, além de andar com as calças em baixo, (felizmente, apenas a primeira camada, prevenido do frio) dá umas piruetas e de seguida estende a mão aberta. Todos pedem, mas entre o centro e o oeste da cidade, a maioria já me conhece e ocasionalmente, trocam o peditório por um simples cumprimento.

“E, como tipo social, o mendigo se sai bem na comparação com muitos outros. Ele é honesto, se comparado com os vendedores da maioria dos medicamentos patenteados; de altos princípios, se comparado com o dono de um jornal dominical; amável, se comparado com um comerciante que vende a crédito com preços extorsivos. Em resumo, é um parasita, mas um parasita razoavelmente inofensivo. Raramente extrai mais da comunidade do que uma vida indigente, e paga por isso com um sofrimento incessante, o que poderia justificá-lo, de acordo com nossos padrões éticos. Não creio que (…) dê à maioria dos homens modernos o direito de desprezá-lo.”. Note-se que todos eles são indivíduos, com a sua historia única, percurso, opções e sorte. Até aquele que se põe a fumar crack à porta do bar dos artistas. É provável que também a meritocracia seja bastarda.

O rascunho dessa obra de Orwell tem o título desta crónica. Já os sem-abrigo, vivem também com esse título. A maioria nunca é mencionada. Há maioria. Que confesse a sua profissão.

 


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