Francisco André Santos

Diacrónicas

Como chegar aos 100

Castigado por Zeus, a mundividência de Sísifo foi reduzida para toda a eternidade ao carregar de uma rocha montanha acima, até esta rolar colina abaixo e repetir a tarefa. Na sua racionalidade, Albert Camus atribui a Sísifo uma revolta absurda da qual este deriva o seu ânimo.

Mas é também da prisão da racionalidade que se contempla unicamente o absurdo. Este pode ser desolador. Equacionado com o suicídio, essa razão torna-se paradoxo: a razão é desprovida de racionalidade. É possível que se articule da mesma maneira que motivo deriva de motivação como motivação deriva de motivo. Há razões que não conseguimos resolver e vivemos do ânimo dessa revolta.

Assaltando o absurdo proveniente dessa racionalidade, existe um palhaço que faz chorar. Rendido à racionalização do absurdo, o Joker mantém-se perdido na razão a que chegou e reflete este ego nas suas ações. O seu objetivo é a perceção coletiva desse absurdo: ou morres ou matas. O anti-herói da razão transforma o mundo por esse paradoxo da justiça. Para quem não conhece, este é o vilão do Batman. Já este, busca justiça para o que pensa ser a razão coletiva. As vivências de ambos resultaram em ânimos diferentes, mas ainda assim, ânimos.

Em oposição, o absurdo do amor elevou a razão do apaixonado jovem Werther e eclipsou a sua racionalidade. Essa existência contemplou o absurdo e não conseguiu descobrir o animo que o sustenta. Egoísta para com a sua falta à racionalidade, desconsiderou o alente animo com o seu suicídio. De onde for derivado, todos existimos com esse absurdo perante a sua mera realização. Além de possíveis ataques de ansiedade, dessa prisão que é a racionalidade, perde-se a liberdade quando objetivamente, é desta que ela deriva.

Muitas vezes, esse desespero é uma reação a episódios traumáticos. Estes, mais que experiência, compõem a nossa existência. Em paralelo, essa composição da existência advém da revolta perante o absurdo. Tal como os heterónimos de Pessoa, na nossa mente dialogamos com a criatividade e com o assombro. Pensando, mais do que com Deus, construímos a dialética da nossa liberdade. Sabia-se um génio?

Não há destino sem tormenta e todo o destino é refém do maldizer. De acordo com Camus, Sísifo não é uma personagem trágica. Aquando desce da colina, ele continua a negar o prazer da sua tormenta aos deuses. A sua revolta é vibrante, e, desprovido dessa tragédia, o herói faz o mito. E por isso, sinto-me abençoado – à minha volta está um enorme panteão de egos cujo o ânimo carrega qualquer rocha.

O último que encontrei chama-se Bill. Quem me conhece com a mantra dos “baby-steps” – pequenos passos, tomaria do Bill mais uma boa frase feita. Parece-me que todas as manhãs, ele relata a resposta de um humanitário que durante a 2ª guerra mundial salvou centenas de crianças. “Como chegar aos 100?” Este Americano de 77 anos, Algarvio há 17, e do nosso hostel em Roterdão há algumas semanas, conta celebrar os 80 com um salto de para-quedas. Perante o absurdo, apelo ao leitor com este exercício: que heróis compõem o seu panteão? A resposta do centenário, herói do Bill, é muito simples: “Keep breathing” … Continua a respirar.

 

 


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