Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do passado

Coelho à caçador

Este mês decidi mostrar os meus dotes culinários, numa tentativa de incentivar os caros leitores a vestirem a jaleca e a colocarem vinagre balsâmico em todas as iguarias tradicionais, à laia dos grandes nomes da nova cozinha internacional. Não se preocupem, não irei chegar tão longe. Apenas vos falo de um prato deveras conhecido da nossa praça.

Esta iguaria bem tradicional das nossas terras requer alguns requisitos essenciais para a sua confeção. Primeiro verifique se tem a licença de uso e porte de arma em dia, não queremos problemas com as autoridades competentes. Porque aqui nós regemo-nos segundo as leis de El-Rei Dom João I, só faz uso das presas quem as caça efetivamente. Portanto, caso seja um leigo nas artes da montaria ou não possua a papelada em ordem, pode arrepiar caminho.

Os restantes chefes de cozinha que me seguem são gentes de fino porte e altamente instruídos, bem vejo. Há dois métodos na caça: a caça grossa, onde investimos os nossos zagalotes num javali, ou para os mais destemidos, um bom urso pardo; e a leve, perseguindo aves e coelhos, nesta categoria pode utilizar como recurso o falcão, mas mantenha uma distância considerável, caso a ave de rapina ainda não o conheça condignamente. Se já mantém uma relação duradora com o falcão em questão, isso é admirável, vê-se que conseguiram ultrapassar a pasmaceira do quotidiano e abraçar uma vida de respeito e confiança mútua.

Voltando à vaca fria, alias, ao coelho. Escolha uma paisagem onde haja estes ruminantes em abundância, para esse efeito mencionarei alguns locais propícios à sua obtenção: florestas; lezírias; circos; Massamá; etc. As espécies variam, mas se quer a sugestão do chefe, aconselhava-lhe visitar o Circo Cardinali, são dos mais apetitosos. Se seguir este conselho, por favor leve sedativos para ilusionistas. O nosso colega caçador, Ivan Turguénev, nunca refere estas últimas cotadas na sua obra “Cadernos de Um Caçador”, pois pretendia ficar apenas ele com os melhores espécimes.

Queria apenas deixar uma nota, na altura de utilizar a panela, por favor não a confunda com a cartola. Vai ver que me vai agradecer por este precioso conselho.

Assim se cozinha em Portugal.


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