Diacrónicas

Francisco André Santos

Co-laborar e a Educação

Impera nos nossos sistemas educativos a ideia de que a Wikipédia tem informação incorreta e que torna os alunos preguiçosos ao facilitar-lhes o trabalho. Não sei se se deve às editoras de livros escolares, ou se são mesmo os nossos professores que preferem não perceber como funciona ou como usar tão poderosa ferramenta. Falemos novamente de literacia digital e de como a diferença de conhecimento dos mais velhos afeta os mais novos. Até porque a par das aulas de inglês, sempre que a aula metia computadores, a minha tendência era a de chacota comedida para com o senhor/a à frente do quadro digital.

É preciso saber trabalhar estas ferramentas. No caso da Wikipédia, saber distinguir o conteúdo bom do mau, avaliando as referências presentes no artigo e verificando a sua origem, assim como ter capacidade crítica para julgar a qualidade do que aí está escrito. Não se deve permitir o "copiar+colar", mas tão pouco se deve censurar o acesso a conteúdo de qualidade.

Em qualquer plataforma é necessário esclarecer e melhorar as regras constantemente. Tal como os nossos materiais escolares melhoraram muito desde o tempo do Salazar, também a qualidade do conteúdo da Wikipédia melhora de dia para dia (em vez de ano para ano), e não fazer uso de uma ferramenta mais aberta e transparente do que os monopólios escolares (olá Microsoft), é importante. Melhor ainda, é desenvolver a literacia digital dos nossos alunos e prepará-los para um futuro que muitos professores não terão que enfrentar ou descobrir.

Também na nossa história advêm um monopólio informacional da sua educação, em parte no formato como no conteúdo. Ainda existem muitas lacunas, em particular, relativas ao nosso período esclavagista e colonial, como na nossa história mais recente. Já por si rica, a nossa história não deixa de ser limitada pelo conjunto de narrativas oferecidas e pré-definidas. Estes limites podem ser parcialmente ultrapassados por conteúdos de acesso aberto e “co-laborados” na internet.

Os nossos livros, quando têm erros, não permitem o direito a um esclarecimento da sua razão, ao contrário do canto junto do editorial da última edição de um jornal. Também acontece que o material fica desatualizado. Os livros são importantes, sim. Mas serão apenas sagrados pelo seu conteúdo. Se tiver uma bíblia em formato digital, esse conteúdo presente num computador será tão sagrado como o impresso, e até mais fácil de partilhar. Não fiquemos presos ao dogma de que determinado conteúdo está preso a um determinado formato. Afinal de contas, a bíblia pode ser escutada em cassete ou CD, e lida no tradicional livro, formato PDF, num website, ou em braile.

Recentemente, assistindo a uma aula numa escola da Batalha, permiti-me o vício de visitar o Facebook. Rapidamente descobri que algo na rede da escola impedia o acesso à aplicação. Chegando ao final da aula, questiono uma aluna, mais próxima da minha idade do que eu da da professora, se a rede da escola bloqueava o acesso. Respondeu afirmativamente e confessou-me que todos os alunos usam um VPN de maneira a escapar a este controlo.

Não consigo deixar de me rir da ironia que é, alunos de numa escola portuguesa adaptarem os métodos de ativistas de países como a China, Irão ou Turquia, para a escapar à censura aí vigente. Mas é um assunto sério: o uso de VPN traz problemas relativamente à segurança e privacidade destes alunos que são obrigados a concederem a um objeto com que nem Orwell sonhou. Pergunto a todos os professores: sabe o que é um VPN? Se sim, convido-o (com a permissão do nosso diretor) a escrever uma "carta do leitor" e explicar como deve um professor responder a estes desafios. Também poderá fazer um comentário no Facebook à partilha do artigo do novo website do Jornal da Batalha. Com alguma sorte, conseguirá perceber porque "é sempre na mesma turma!" que os alunos secretamente invalidavam o uso do computador. Fale com os seus colegas! Como já sabemos "no meio dos amigos aprende-se muito mais do que em todos os manuais". Melhor ainda: contribua para uma página na Wikipédia!


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