Joana Magalhães

Pestanas que Falam

As cinzas que podem voltar a cair na esplanada

Recordo a noite de 17 de junho de 2017 como se fosse ontem. Estava em Leiria, numa esplanada da Praça Rodrigues Lobo, com os meus pais, a beber um copo em jeito de celebração pela licenciatura que terminara há poucos dias. Entre conversas jornalísticas – habituais entre os três e para mal de quem se junta a nós – a mesa foi-se cobrindo de cinza, bem como o nosso cabelo, roupas e bebidas.

Achámos estranho aquele fenómeno, havia incêndios ativos na região, mas, que nós soubéssemos naquele momento, nada que justificasse que as cinzas chegassem até ao centro da cidade, com aquela intensidade.

Entretanto, tornou-se impossível permanecer na esplanada, a cinza chegava com tanta velocidade que foi cobrindo tudo onde pousava. Decidimos regressar a casa. Ligámos a televisão: era o incêndio em Pedrógão Grande. Já havia mortos.

Nem 15 minutos depois os telemóveis lá de casa começaram a tocar. A palavra de ordem passou a ser “ir”. Ir, ver e contar o que está a acontecer. São assim os jornalistas.

Eu, recém-licenciada em Comunicação Social senti um frio na barriga. Entre a preocupação de ter os pais a fazer reportagem do fogo e o orgulho e vontade de partir com eles, a minha alma tornou-se irrequieta e sem saber bem o que fazer.

Foi o primeiro dia em que senti o dever da missão, do jornalismo. Naquele momento jurei que faria o que pudesse para contar as histórias da região, da minha casa, de Leiria. O sentimento repetiu-se no final do verão, quando ardeu o Pinhal do Rei.

Hoje olhamos para estes locais e, três anos depois, questionamo-nos sobre o seu futuro: se estão a ser cuidados, se estão esquecidos, se o inferno se vai repetir. E esta última é daquelas questões cuja resposta faz, muitas vezes, temer o pior.


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