Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

Cidade pouco serena

Depois de tanto tempo fechado, como um monge copista, na minha casa a ler e a escrever incessantemente, voltei a viajar. Por estes dias vivo na sereníssima cidade de Veneza, convivendo com o grifo, que protege estes canais e passa o tempo a folhear um livro pesado e extenso (nunca compreendi quanto daquela obra magnifica o nosso amigo grifo realmente leu).

Para além de visitar os monumentos, as incontáveis pontes e museus venezianos, que são de cortar a respiração, ainda trabalho no museu Peggy Guggenheim Collection, que se situa no Palazzo Venier dei Leoni. Todos os dias convivo com Pablo Picasso, Wassily Kandinsky, Salvador Dali ou Marcel Duchamp, que fazem sempre questão de dar dois dedos de conversa e convencer-me a ser pintor, apesar de eu responder que apenas sou escritor e historiador. A Peggy Guggenheim era amiga intima de todos estes artistas, por isso, não é de estranhar que se sintam em casa no palácio da famosa colecionadora. Max Ernst dá grandes passeatas pelo jardim, mas os visitantes nem se apercebem do vulto artístico que têm diante deles. Numa destas tardes fui beber um spritz com o Jorge Luis Borges no seu Caffè Florian. Ele tinha ido visitar o museu e parou diante da imagem do quadro Janelas Abertas Simultaneamente 1ª Parte, 2º Motivo, de Robert Delaunay, de 1912.

- Conheceu o Delaunay? – perguntou-me Borges.

- Sim, quando ele e a Sonia Delaunay estavam a viver em Portugal foram-me apresentados pelo meu amigo Amadeo.

- Então lembra-se o que ele lhe contou sobre este quadro, com certeza.

- Na verdade não, mas pelo que investiguei é uma alusão à Torre Eiffel e ao fascínio pela modernidade.

- O mesmo que descrevo no meu conto sobre o planeta Tlön?

- De certa maneira, sim – respondi espantado.

Nos incomensuráveis salões do Palazzo Ducale, na Praça de São Marcos, fui recebido pelo Doge Francesco Morosini, que dizia não poder estar presente, porque tinha deixado este mundo em 1694.

- Sua Excelência, os caprichos de um historiador e leitor são infinitos – afirmei em resposta.

- Desta vez, aceito as tuas explicações, porque vejo que o meu bem-amado gato gosta de ti.

O gato predileto do Doge deitava-se perto de mim a ronronar, dando o seu voto de confiança.

Se parece que o tempo se emaranha nas linhas de Clio, é porque Veneza não tem era, nem espaço. A cidade parou na Idade Média e no Renascimento, as ruas labirínticas convidam à desorientação e tudo parece cristalizado no tempo.

À tarde almoço uma pasta com Tintoretto, na Accademia, e à noite bebo prosecco com Joseph Brodsky. Tudo é possível em Veneza.

As gondolas continuam o seu percurso há séculos nesta ilha, que mantém a forma de peixe e nada para fora da realidade. Esse é o destino desta Atlântida fundada à 1600 anos.

 


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