Cartas da Escócia

 

O que vos relato é difícil de acreditar, mas as minhas palavras respiram o vero destino dos atos rocambolescos que vivi e sobrevivi. Quando já não esperava qualquer resposta da escola das florestas e rochedos escoceses, depois de tão atribulada entrevista, eis que me chega uma providência divina.

Quando estava de regresso a casa reparo na porta do prédio escancarada, um habito pouco comum. Ao entrar no apartamento deparo-me com um bando de corujas a sobrevoar o hall e a sala, enquanto outras tantas estavam pousadas por todo o lado. Todas traziam uma carta no bico. Que rebaldaria vinha a ser aquela? Abri o lacre carmim de um dos envelopes e retirei a preciosa mensagem. A missiva convocava-me a estar presente na escola, a fim de lecionar uma cadeira temporária de História Medieval, principalmente dedicada ao seu imaginário e simbolismo. Fiquei feliz, mas como haveria de espantar aquela passarada toda do meu sofá, mesas e cadeiras? Bem, quando regressasse da Escócia resolveria esse assunto.

Lá voltei eu a fazer o trajeto do costume. Desta vez fui recebido na estação de comboios da escola por um senhor alto e encorpado, um autentico gigante. Não tinha muito jeito para línguas, mas até fez conversa. Este foi o diálogo possível durante o nosso percurso.

- O que acha dos animais proibidos e perigosos? – perguntou-me o anfitrião.

- Não me atraem lá muito, para lhe ser franco.

- Não são tão difíceis de lidar como aparentam. Os dragões são muito amistosos, por exemplo.

- Os de Cómodo nem por isso.

- Não conheço.

Voltei a admirar a imensidão daquele castelo. Quando entro pelas portas altas sou recebido pelo Diretor da escola, aquele decano sábio de barba longa.

- Senhor Francisco, seja bem vindo. Obrigado por ter aceite o nosso convite.

- Eu é que agradeço, caro Diretor.

Foi servido um faustoso jantar, com os alunos dispostos em quatro compridas mesas à nossa frente. A comida não parava de chegar, sabe-se lá de onde. Ao meu lado ficou o Professor que tinha sido entrevistado no mesmo dia que eu.

Fui colocado a dormir num sitio ao qual chamam masmorras, sei que pode parecer assustador, mas isto deve ter sido uma praxe por ser novo, nada de mais.

De manhã fui dar a minha aula a uma turma de 2º ano, ao qual cá em Portugal chamamos 7º. A turma estava sempre a fazer aviões de papel e traziam paus para a sala de aula, um comportamento inaceitável para o bom nome daquela instituição.

- Olá a todos. Hoje abordaremos as problemáticas de andar sozinho pelas florestas e bosques na Idade Média. Sabem o que podemos encontrar no seio desses labirintos?

- Centauros, unicórnios… - afirmava uma rapariga empenhada, mas sonhadora e imatura.

- Mas vêm para aqui brincar? Unicórnios? Assim nunca serão medievalistas.

- Eu encontrei um unicórnio na floresta negra no ano passado – relatava um rapaz desgrenhado de óculos.

- Eu também já vi umas bruxas, mas isso não quer dizer que existam.

Após as minhas palavras fez-se um silêncio sepulcral. Parecia que tinha conseguido impor o respeito.

- Imaginem que vivem na Idade Média, sem recurso a eletricidade, telefones, computadores…

- Nós não temos nada disso hoje em dia – explicava um rapaz ruivo.

Na realidade ele tinha razão. Aqueles alunos estudavam em completa miséria.

Continuei a aula sem sobressaltos de maior relevância. Até que, logo que saí da sala, comecei a notar comportamentos estranhos nos corredores do castelo. Juro que, por segundos, julguei vislumbrar um basilisco. Devaneios imaginários de poeta nas altas montanhas da Caledónia. Ler leva-nos por caminhos tão fabulosos que chegam a tornar-se realidade.

 

 

 

 

 


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