Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do passado

Carta de Maputo II

A pedido dos estimados leitores, continuarei o relato empolgante do nosso Lourenço Marques na senda da guerra em Moçambique. A carta termina, mas há muito que não é relatado. Mesmo que não receba mais noticias deste notável jornalista, já valeu a pena ler o seu testemunho.

“Devo uma explicação lógica a quem me estará a ler. Tudo começou no mês de Maio, quando o redactor-chefe do jornal onde trabalho, chegou ao pé de mim com um sorriso trocista. Entregou aos meus cuidados um trabalho de reportagem de guerra em Moçambique. Eu ainda não me sentia preparado, tinha chegado há poucos meses àquela redacção, onde reinava a disputa e os despedimentos sucessivos. Por estas razões era-me impossível recusar a proposta. Não sabia como ia contar este desafio à minha família e amigos, talvez vissem como um corajoso acto de heroísmo, ou, uma loucura acicatada por alguém sem meios de sobrevivência.

O avião partia na madrugada de 6 de Junho, até ai ganharia tempo para processar tudo na minha cabeça e despedir-me dos que mais amo e admiro. Uma dessas pessoas tratava-se de uma mulher, desaparecida da minha vida desde a infância. Joana, era o seu nome, e a paixão que por ela sentia nunca havia cessado. Posso admitir, o meu medo compulsivo em declarar os sentimentos que nutria por ela. Falava-me de paixões momentâneas compartilhadas por rapazes audazes e destemidos, ao contrário de mim, um mero leitor de jornais e livros espessos, que vislumbrava o mundo nas letras minúsculas de um boletim noticiário de papel reciclado e fino. Mas e agora, quem é o corajoso? Aquele que dá o peito às balas, em defesa da verdade e da retidão?

Eu podia ter continuado a realizar entrevistas bacocas a altos representantes das artes e letras deste país intelectual e renegador das suas origens, mas, em vez disso, estava a caminho das portas da morte, num percurso lento, tentador e prometedor de melhores tempos na carreira que escolhi apenas com quinze anos. Sabia lá eu o que queria para a minha vida? Achava que correr riscos em nome de algo maior que nós próprios seria a única forma de me tornar numa lenda, ou algo parecido. Talvez até o próprio repórter belga Tintim tenha contribuído para isso, mesmo que de uma forma irrefletida.

Foi nesta conjuntura que embarquei no avião da TAP, numa manhã enublada de Junho. A única pessoa que apareceu no aeroporto para se despedir, foi o meu grande amigo, Carlos.

- Lourenço, faz o favor de aproveitar as férias, enquanto eu prossigo a tua série de entrevistas demagógicas. Quem me dera partir nesse avão.

- Não sintas inveja, acredita que não é fácil ir-me meter no meio de uma guerra civil, ainda para mais no Verão. - Sabes o que dizem sempre, “As batalhas começam na Primavera e acabam no Outono”. Ou seja, não tinhas outra hipótese como esta.

- Não me sinto preparado para enfrentar a guerra, enquanto na minha cabeça travo outras batalhas.

- Tão dramático como de costume. És descomprometido, sem obrigações e com total liberdade, o que queres mais?

- Carlos, vai tu neste avião e eu continuo a cobrir as entrevistas enfadonhas, não me importo nada de continuar nesses voos baixos.

- Cala-te e embarca. Se vais contrariado, pensa apenas que é o teu emprego que está em risco. Depois de pronunciadas estas palavras derrotistas e de fatalidade assumida, abracei-me ao meu amigo e prometi regressar em Setembro, deitando ao lixo três meses fabulosos de sol e praia, para atravessar o calor infernal da guerrilha moçambicana.

Lourenço Marques, Jornalista correspondente do Jornal Noctivago


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