Alfredo Martins

Internista e coordenador do Núcleo de Estudo de Doenças Respiratórias da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

Cada doente com Coronavírus contagia em média 2,2 pessoas

Até hoje estão descritas sete estirpes diferentes de Coronavírus que provocam doença no ser humano, incluindo o novo Coronavírus 2019 (2019-nCoV), responsável pela atual epidemia que teve origem num mercado grossista de peixe em Wuhan, cidade da província de Hubei na China, em meados de dezembro de 2019.

Quatro destas estirpes estão bem adaptadas aos humanos, não é conhecido nenhum reservatório animal delas, e provocam praticamente sempre uma doença ligeira das VAS que não exige tratamento específico e que se caracteriza pela presença de secreções nasais, mal estar, dores de garganta, dores de cabeça, espirros e febre. Muito raramente podem causar dificuldade respiratória e pneumonia.

Em 31 de dezembro de 2019 as autoridades chinesas reportaram um conjunto de casos de pneumonia grave em Wuhan e em 10 de janeiro de 2020, investigadores do Centro Clínico de Saúde Pública e da Escola de Saúde Pública de Xangai, registaram a sequência genómica do 2019-nCoV nas bases de dados de saúde pública.

O 2019-nCoV transmite-se de pessoa a pessoa e, segundo os dados epidemiológicos conhecidos, um doente contagia em média 2,2 pessoas (5 doentes contagiam 11 pessoas diferentes), uma taxa de contagiosidade inferior à verificada na SARS, em que cada doente contagiava em média 3 pessoas.

Os principais transmissores da doença são os doentes com sintomas de infeção que, provavelmente, disseminam o vírus através da tosse e dos espirros, mas estão descritos casos que desconhecem contactos prévios com pessoas sintomáticas. A taxa de transmissão da doença ao pessoal de saúde parece ser inferior que a que foi verificada na SARS e a que se verifica na MERS.

Até hoje já foram diagnosticados 14.411 casos nas 33 províncias da China, cerca de 15% considerados graves. Fora da China estão diagnosticados 146 casos em 23 países, números atualizados diariamente pela OMS. Em Portugal ainda não foi ainda confirmado nenhum caso. O 2019-nCoV provoca uma doença semelhante à SARS, mas talvez menos grave, com cerca de metade dos casos a ocorrer em indivíduos acima dos 60 anos e com poucos diagnósticos em crianças e em jovens.

Na fase inicial do surto cerca de 89% dos doentes não estavam internados no quinto dia de doença, o que significa que provavelmente existe uma percentagem elevada de pessoas infetadas com poucos ou nenhuns sintomas. A taxa de mortalidade parece ser significativamente mais baixa que na SARS, não atingindo os 3% com os números que são conhecidos até à data e a maioria dos doentes que morrem são idosos ou têm doenças crónicas.

Não se conhecendo ainda como se processa a transmissão direta pessoa a pessoa, se por contacto direto (aperto de mão, abraço, beijo) ou por gotículas ou aerossóis (espirros, tosse), não são ainda conhecidas as medidas mais adequadas para evitar o contágio.

Assim recomenda-se que todos os doentes com suspeita de infeção ou com infeção confirmada coloque uma máscara que cubra o nariz e a boca e sejam colocados em isolamento, e que o pessoal de saúde que tenha que contactar com eles utilizem o equipamento de proteção individual conforme recomendado pela DGS.

As pessoas que estiveram em contacto direto com doentes infetados, ou com doentes em quem o diagnóstico se confirmou mais tarde, estão em risco de desenvolver a doença num espaço de tempo que pode ir até aos 14 dias depois do último contacto.

Não estando garantido que o vírus não se transmite numa fase inicial de infeção, com poucos ou nenhuns sintomas, as pessoas que viajaram da China, sobretudo da província de Hubei, também estão em risco de desenvolverem sintomas de doença nos 14 dias seguintes ao último dia de permanência.

As pessoas que estão nestas duas situações devem evitar o contacto próximo com outras pessoas durante os 14 dias do período de incubação da doença e devem andar de máscara e evitarem a emissão de aerossóis quando tossem e quando espirram, colocando o antebraço à frente da boca e do nariz. Idealmente deveriam permanecer em isolamento neste espaço de tempo.

As viagens à China devem ser evitadas e, a pessoas que viajarem devem evitar contacto com doentes ou pessoas com sintomas respiratórios, com animais vivos ou mortos e com carne e outros produtos de animais mortos, uma vez que não se sabe se a transmissão do animal para o homem foi esporádica ou se continua a ocorrer.

Esta doença pode provocar uma catástrofe mundial. O estudo das suas características e do seu comportamento no futuro irá fornecer dados importantes para melhorar o seu controlo. Talvez seja possível dentro de 3 ou 4 meses ter disponível uma vacina para ajudar a atingir este objetivo. Por enquanto, o mais importante para evitar, ou pelo menos, diminuir a sua propagação é estar atentos e cumprir as recomendações que vão sendo emitidas pela OMS, pela DGS e pelos serviços de saúde mais próximos. As medidas de saúde pública implementadas vão conter a disseminação da doença, mas os próximos tempos são muito importantes para conhecermos a sua capacidade de disseminação e persistência na espécie humana.


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