João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Bontempo, o eterno renovador

 

Comemora-se neste ano de 2021 duzentos e cinquenta anos sobre o nascimento do grande pianista e compositor João Domingos Bontempo, já que nasceu em 28 de Dezembro de 1771 e veio a falecer em 18 de Agosto de 1842. E não obstante ser só em Dezembro que se completa a efeméride, porque é um dos grandes vultos da cultura portuguesa do século XIX, faz todo o sentido invocar o seu nome e principalmente recordar a sua obra no início do presente ano.

Bontempo foi um espírito inconformista que nunca se prendeu às convenções estéticas do seu tempo, permanentemente preocupado em inovar, em libertar-se de um certo meio que, pela sua estreiteza de ideias, por vezes o asfixiava. Por isso mesmo, não é fácil catalogar a obra de Bontempo: alguns consideram-no já um romântico, outros apontam a influência de um considerável italianismo na sua arte musical, outros ainda salientam na sua obra o cunho religioso. Tudo isto pode ser verdade, mas o que avulta no seu percurso musical é uma dimensão europeia, muito mais do que tratar-se de um mero compositor luso.

E a sua principal criação, composta por sinfonias, sonatas, concertos para piano (entre outras) reflete a influência da Escola de Viena, mas não só. João Domingos Bontempo percorreu uma parte importante da Europa: esteve em Paris, onde publicou os seus primeiros trabalhos; viveu em Londres, cidade que o acolheu e aplaudiu. E não ficou imune ao ambiente cultural dessas capitais. Ao contrário de Portugal, onde se conseguia apresentar-se em público, era sempre em algumas festividades ou em eventos diplomáticos. Apenas no final da sua vida conheceu o êxito no seu país natal, e isso devido à consagração que havia tido em Paris e Londres.

Mas comecemos pelo princípio. João Domingos Bontempo era filho de Francisco Xavier Bontempo (também ele músico), o qual ministrou ao filho as primeiras lições. Depois, continuou a sua formação no seminário Patriarcal. Aos catorze anos ingressou na Irmandade de Santa Cecília, pelo que logo se vê que Bontempo bebeu precocemente do filão musical religioso.

Depois da morte de seu pai, em 1791, Bontempo passou a ocupar o lugar deste como músico da câmara real. Contudo, não plenamente satisfeito, partiu para Paris em 1804, cidade em que compôs a sua primeira sinfonia, apresentada em 1810. No entanto, teve que deixar a França por causa das invasões napoleónicas que ocorreram em Portugal, invasões que o tornavam inimigo de França.

Assim, viajou para Inglaterra, fixando residência em Londres onde imprimiu quase toda a sua obra, por intermédio de Muzio Clementi que tinha uma imprensa de música em sociedade com os irmãos Collard. Em 1814 regressa ao nosso país, mas foi friamente recebido: só conseguiu dar um concerto e foi numa festa diplomática. Desapontado, vive nos anos seguintes em Londres e Paris, com muitas dificuldades económicas.

É precisamente em Paris que escreve a sua obra magna, a Missa de Requiem dedicada a Camões, poeta com o qual o compositor sentia uma particular afinidade. Graças ao tremendo êxito que o Requiem conhece em Londres, retorna a Portugal, agora exaltado com toda a solenidade: em 1833 é-lhe entregue o cargo de professor de música de D. Maria II. Finalmente, tendo sido fundado o Conservatório anexo à Casa Pia, Bontempo é convidado para o dirigir, e em simultâneo vê-se elevado a chefe da Orquestra da Corte.

João Domingos Bontempo veio a falecer em 1842, mas a sua contribuição para a renovação da música clássica em Portugal é colossal e a sua obra, entre música religiosa, instrumental e música de câmara, permanece para sempre e faz parte da História da Cultura Portuguesa.


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