José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (222)

Batalha, Estaleiro da Arte

 

Vocação

 

A Batalha foi terra de escultores

(pois não é escultura o trabalho da pedra?)

que é preciso evocar

e, mais do que evocar,

retomar.

A pedra ainda está lá,

na muralha calcária

do maciço estremenho

e dentro dela, cativa,

a arte que é preciso libertar.

Retomemos, pois, na Batalha

a sua vocação secular:

ser, de novo, o estaleiro,

mas desta vez permanente,

da arte que na pedra bruta

está ainda latente.

 

 

Museu da Escultura, da Pintura e da Fotografia

 

Este apontamento é escrito antes das eleições autárquicas, pelo que não é dirigido particularmente a ninguém mas à Vereação, seja ela qual for, que for eleita. Aliás, volto a expressar uma velha sugestão: a criação de um segundo museu municipal vocacionado para salvaguardar e divulgar a escultura, sobretudo dos afamados canteiros batalhenses, a pintura de pintores locais ou que foca temas relacionados com a Batalha e a fotografia que desde os primórdios da arte fotográfica, sensivelmente a partir da segunda metade do século XIX, aqui foi generosamente praticada pelos maiores fotógrafos portugueses e estrangeiros.

Vem a propósito lembrar que já no século XIX, o notável erudito e investigador Joaquim de Vasconcelos sugeria, mas no Mosteiro, um museu onde a fotografia tivesse o papel de revelar, aos visitantes, tudo aquilo que por estar em capiteis, lá muito no alto, se tornava quase invisível.

Dir-me-ão os leitores: mas na Batalha já há um museu municipal e, ainda por cima, um museu de invulgar qualidade, dos melhores que há no nosso País. Isso é inteiramente verdade, mas não tem espaço que possa albergar um espólio maior. Está repleto e está como deve estar, revelando muito, e de forma inteligente, de milénios da história do nosso concelho. Um museu que merece todos os encómios, extraordinariamente bem orientado e excelentemente servido por funcionárias de grande competência e dedicação.

Mas nele mais nada cabe, pelo que obrigatoriamente tiveram de ser excluídas a pintura, a escultura e a fotografia.

Um novo museu, que será complemento daquele precisa doutro espaço, um espaço próprio capaz de albergar, nas mesmas condições do da Comunidade Concelhia, valores que estão dispersos ou, pior ainda, que estão em perigo de se perderem irremediavelmente.

Creio que, pelo menos, os artistas da região facilitariam a aquisição de obras suas e que haverá coleccionadores que estejam dispostos a contribuir generosamente com a oferta dalgumas peças das suas colecções.

 

 

Capela de Nossa Senhora do Caminho

 

Neste mês, os “Apontamentos” são ilustrados com a fotografia da Capela de Nossa Senhora do Caminho já restaurada.

Pequeno templo, que tem especial significado para os batalhenses, tudo leva a crer que pertencia aos Dominicanos pois estava incrustada no muro da cerca conventual. Abandonada, depois da expulsão dos frades do seu convento, entrou em ruína, sendo restaurada em 1906 por voto dum particular, o Comendador Dr. Joaquim Vicente da Silva Freire, figura de relevo social e médico de grande prestígio, tendo exercido a medicina em Lisboa. No letreiro, em placa de calcário sobre a porta, refere-se que “foi restaurada e melhorada”, mantendo, segundo creio, a traça original.

Como já aqui o disse, a capela é de estilo barroco, mas um barroco rural e como tal muito simples. Não deixa de ostentar, porém, os vasos flamejantes tão característicos deste estilo.

O seu restaurador de 1906 pertencia a uma antiga família da Batalha hoje sem descendentes na nossa Vila. Um seu parente, também de nome próprio Joaquim e de apelido Freire emigrou para o Brasil no século XIX, onde se dedicou ao comércio no Rio de Janeiro mas, conforme diz Simão de Laboreiro no prefácio da obra “Fronteiros de Portugal”, uma das várias obras do emigrante batalhense, “desde muito novo o Sr. Joaquim Freire começou a cultivar as letras. Pertencendo a uma antiga família de eruditos veio para o Brasil muito jovem, entrando na carreira comercial…”.

Deste Joaquim Freire tenho duas obras, a já citada “Fronteiros de Portugal – de Aljubarrota a Ceuta, 1383-1433” e “Os Árabes nas Hespanhas”, a primeira publicada em 1934 e a segunda em 1935, ambas no Rio de Janeiro. Mas, segundo refere Simão de Laboreiro, “Um dos seus trabalhos de investigação histórica mais notável é o estudo extenuante, completo, sobre as edições primeiras de “Menina e Moça”, de Bernardim Ribeiro. O assunto ficou esgotado. (…) Este estudo… mereceu a D. Carolina Michaelis os mais rasgados elogios”. Diz, ainda, Simão de Laboreiro que esta obra de Joaquim Freire foi oferecida à Biblioteca da Universidade de Coimbra.

Creio que há descendentes da família Freire no Brasil e, em Portugal, pelo menos parentes meus a viver em Torres Vedras e no Algarve. Nesta província é directora regional da Cultura, a Prof.ª Dr.ª Adriana Manuela de Mendonça Freire Nogueira.

Seria interessante que a nossa prestigiosa Biblioteca Municipal metesse ombros à tarefa de investigar quantos e quais batalhenses, ou seus descendentes cá e fora de Portugal, se dedicaram às Letras e têm obra publicada. Evidentemente quando refiro batalhenses, quero dizer os de todas as freguesias do concelho. Só no Reguengo do Fetal há vários e de projecção nacional.

Embora a idade já não me permita transmitir como eu gostaria as memórias que fui acumulando, mesmo assim terei todo o gosto, e é meu dever, em colaborar numa iniciativa deste género.


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