José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (205)

A Batalha dos anos 30

Nesta fotografia tirada nos anos 30 do século XX pela afamada empresa fotográfica do Porto, a Casa Alvão, com certeza pelo seu colaborador Álvaro Azevedo, mais tarde sócio de Domingos Alvão e depois seu sucessor na propriedade da empresa, vê-se uma Vila da Batalha em grande parte desaparecida com o plano de urbanização dos anos de 1960.

Em frente, no alto do Carvalho do Outeiro está uma das poucas casas, nesta imagem, que se salvaram da rasoira do citado plano: a casa do ilustre médico Dr. José Maria Pereira Gens. À esquerda desta, e um tanto afastado, estava o edifício do Hospital da Misericórdia da Batalha, na altura já desactivado. Mais abaixo um renque de casas onde hoje estão o Café Esquina, a casa da família Couto Pinho e a pastelaria Arqueiro. À direita, em baixo, a casa da família Ramos Moura, onde está hoje o Centro Comercial Jordão.

Os edifícios em primeiro plano, além evidentemente do Mosteiro, centro e razão de ser da nossa Vila, começando pelo do fundo, deparamos com um, um pouco mais alto do que os restantes, onde então estava instalado o Centro Comercial de António Moniz Ramos e onde mais tarde havia de estar a segunda sede da Caixa de Crédito Agrícola. A seguir ficava a Rua do Cano e logo o edifício do comerciante Daniel Fernando Luís, depois o da família Monteiro, que era tradição popular ter sido casa do Mestre Mateus Fernandes, nele tendo funcionado no século XIX o Hotel Fernando, mais tarde Hotel Ramos antes de passar para outro local do Largo de João I, e onde no século XX esteve a residência paroquial e depois o posto da Guarda Nacional Republicana. Houve nas traseiras deste edifício uma das afamadas tabernas da Batalha, a da Trindade Berta. No rés-do-chão havia uma loja de cereais. Seguia-se a casa do meu avô António Maria dos Santos, onde no rés-do-chão funcionou a farmácia Ferraz fundada em 1902, depois a minha casa em cujo rés-do-chão estavam o Notariado e o Registo Civil, seguida da de Álvaro Ferreira da Silva e do seu Café Primavera, onde com receita trazida de Aveiro se fabricavam os pudins da Batalha. Ao lado corria a Rua do Comendador Sales que ia até ao solar da Quinta do Fidalgo. Nesta rua outra afamada taberna e casa de pasto, a da Beatriz do Nascimento e um pouco mais acima a casa da família Moreira Padrão.

Voltando ao largo ainda se vêem a casa de Joana Henriques e uma ponta do edifício que pertenceu a Armando de Azevedo Mendes Costa e onde veio a instalar-se o Café Primorosa de Custódio da Silva Botas. Mais acima estava a Pensão Ramos. No rés-do-chão da casa de Joana Henriques funcionou a livraria Saitam, de António do Rosário Matias.

Vêem-se três pináculos do famoso chafariz da vila, verdadeiro monumento feito pelos nossos canteiros do século XIX que seria interessante e enriqueceria o largo em frente do Mosteiro, hoje Largo da Vitória, reconstruir-se quase no mesmo local onde estava nos anos 60 do século XX.

Neste mesmo largo situava-se, mas não sei em que ponto exactamente, a Casa de Pasto da senhora Angelina, onde Eça de Queirós, então Administrador do Concelho de Leiria e o seu grande amigo Ramalho Ortigão, que o tinha ido visitar, almoçaram divinamente no Inverno de 1870 ou 1871. Estão a completar-se 150 anos. Seria interessante a evocação deste almoço, repetindo-se a ementa com que a senhora Angelina os presenteou e que encantou os dois escritores: sopa saloia de feijão e couve, um arroz com cenouras e pimentos e leitão assado…

Quem seria esta senhora Angelina que querendo agradecer e retribuir os elogios que Eça e Ramalho Ortigão lhe tinham feito, os brindou com este palavreado: “Estou muito satisfeita por merecer elogios de Vossas Senhorias, que eu vejo muito bem serem uns pandilhas finos… pandilhas de certa ordem!...”? (Da obra de Júlio de Sousa e Costa, “Eça de Queiroz (Memórias da sua Estada em Leiria) 1870 – 1871”, obra que bem merecia uma reedição pelas espantosas informações que nos dá sobre o grande escritor.

A fotografia reproduz-se do livro “A BATALHA vista pela Casa Alvão”, obra editada pela Câmara Municipal da Batalha com um estudo precioso da historiadora Drª Maria da Luz Moreira e a coordenação do Dr. Rui Borges Cunha.


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