Francisco Oliveira Simões (Historiador)

Crónicas do Passado

Balada de Praga

 

A névoa aparecia todas as manhãs e deambulava pelas ruas de Praga. Ao passar pela Ponte Carlos debatia-me com o denso nevoeiro e o gélido ar cortante. As trinta e uma estátuas dos santos, que ornamentam a ponde do século XIV, cumprimentavam a passagem de todos os transeuntes.

Viajei até esta cidade há pouco mais um ano, com o sonho de conhecer o meu próprio expecto naquela capital medieval e artística. As luzes luziam nas ruas e na majestosa árvore de Natal, que se erguia na Praça da Cidade Velha, sob o som dos cânticos e o tradicional mercado, oriundo das mais recuadas eras.

Antonin Dvorak cumprimentava-me sempre que deambulava pelas margens do rio Vitava e me deparava com o Rudolfinum e o Teatro Nacional de Praga. Wolfgang Amadeus Mozart lançava um simples olhar ao ver-me entrar no Teatro Estatal de Praga, onde estriou a sua celebre obra “Don Giovanni”.

Ditavam as leis da cortesia que retribuísse a hospitalidade destes cavalheiros, apesar de tudo fui recebido em suas casas. Acabámos por almoçar numa cervejaria.

- O que acha do gulache, Antonin?

- Bom, mas tem demasiado sal!

A nossa conversa resumiu-se a estas duas linhas de dialogo. Não comento a atitude do Wolfgang, que nem se dignou a responder ao meu convite.

O relógio astronómico estagnou e deixou o ponteiro preso nas 23h00. A noite permanecia imóvel até que o mecanismo voltasse a fazer a sua dança giratória. Eu continuei a dar os meus intermináveis passeios. O interior do Palácio Wallenstein ainda brilhava mais durante a noite, revelando as suas pinturas à luz das velas. A Catedral de São Vito deitava a sombra gótica por toda a povoação, num gesto protector. E eu aproveitava cada recanto luminoso dos candeeiros para admirar a escuridão.

- Tem lume? – Perguntava um vulto insigne, coberto por um chapéu e uma gabardine comprida.

- Tenho! – Respondi, tirando do bolso o meu isqueiro.

- Obrigado – Agradeceu o desconhecido enquanto pegava no objecto e acendia um cigarro – O que faz por estas paragens?

- Visito uma das minhas cidades favoritas e relembro e época medieval.

- Um romântico, que pouca sorte padecer de tão grave patologia.

- Eu sou assim por natureza, escrevo poesia.

- Prefiro contos.

- É escritor?

- Nos tempos livres, quando não estou a tratar de seguros – Queixava-se o contista – Já agora, estaria interessado num seguro de vida?

- Não, muito obrigado – Pensei de imediato que fui apanhado na rede de um vendedor nato.

- Bem, vou andando, que ainda quero aproveitar para escrever qualquer coisa.

- Mas ainda não me disse como se chama, gostava de ler os seus contos.

- Franz Kafka, mas duvido que encontre a minha obra traduzida.

- Irei tentar, fique descansado.

Após esta conversa casual, a sua silhueta foi-se esfumando pelas vielas de Praga até se diluir na própria cidade.

O relógio continuou parado até que eu tivesse regressado a Lisboa, para de novo bailar na azafama da História.


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