João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

A arte urbana de Sam The Kid

Ao longo da História, a humanidade foi atraída para as grandes cidades, formando núcleos populacionais complexos, como massas imensas que parecem ter uma unidade cultural.

A realidade é que permanece uma multiplicidade de vivências e experiências, onde cada indivíduo ou grupo de indivíduos tem os seus próprios problemas económicos, sociais, psicológicos.

Houve sempre uma certa resistência à assimilação que permitiu o florescimento de culturas urbanas, na procura da alteridade no meio de todo um pretenso progresso.

Na contemporaneidade, esse aparente desenvolvimento económico não correspondeu às expectativas das populações e produziu localmente uma mudança de atitude, dir-se-ia de afirmação da diferença, principalmente entre os mais jovens.

Estavam assim criadas as condições para a expressão artística, conhecida por hip hop, que nasceu nos Estados Unidos na década de setenta do século passado.

Artistas como Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa ou os Run DMC, foram influenciados por seu turno pelos sistemas de som oriundos da Jamaica e pela música africana.

O hip hop espalhou-se a nível global, à semelhança do jazz, não apenas como música de dança, mas como expressão musical e poética que refletia o estilo de vida das gerações mais jovens que habitavam os subúrbios.

Lisboa não ficou imune à sua influência e à semelhança de qualquer grande metrópole viu surtir na sua margem sul vários rappers que foram ganhando visibilidade: primeiro, graças a alguns programas de rádio, mais tarde através das plataformas digitais.

Logo em 1994 o chamado hip hop tuga assaltou as tabelas de vendas dos discos mais vendidos com a compilação República. E Nadar foi o êxito dos Black Company que se ouviu até à exaustão; até os políticos o usaram em campanhas, designadamente a favor das gravuras rupestres do vale do Côa, quando diziam que as gravuras não sabiam nadar.

Um ano antes, em 1993, um rapaz da zona de Chelas chamado Samuel Mira já se interessava pelo hip hop e, em 1999, lançou o seu primeiro trabalho, intitulado Entretanto. Mas foi preciso esperar por 2006 pelo seu disco de maturidade: Praticamente.

Samuel Mira, mais conhecido por Sam The Kid, utilizava neste registo o rap como veículo privilegiado para a mensagem poética, carregada de sentido e portugalidade. De fato, a sua arte aproximava-se da grande arte poética, designadamente de Mário Cesariny e também da canção nacional, com um enorme respeito pela língua portuguesa. Tal como diz na faixa Poetas de Karaoke, Samuel é Madredeus, é Dulce Pontes.

Não surpreende portanto que tenha colaborado no álbum Amália Revisited, disco de homenagem a Amália Rodrigues; que tenha sido convidado por Carlos do Carmo e que tenha gravado um tema com o grande Jorge Fernando.

Praticamente é muito provavelmente o mais importante disco de hip hop gravado em Portugal. Com uma produção bastante elaborada, trabalhado ao pormenor, cuidado ao detalhe, foi esculpido com palavras e samples sofisticados; cada palavra não é atirada ao acaso, mas ponderada e pensada; cada rima obedece à musicalidade do todo; e na uniformidade de cada estrofe ganha força a mensagem que não deixa ninguém indiferente. Poderoso e praticamente perfeito.

Samuel Mira completou 40 anos de idade no dia 17 de Julho e tudo indica que continuará a ser o Sam The Kid. Atualmente, está envolvido no projeto Orelha Negra, em conjunto com os músicos Fred Ferreira (filho de Kalú, baterista dos Xutos e Pontapés), DJ Cruzfader, João Gomes e Francisco Rebelo.

O projeto conta com três registos de longa duração e constitui um dos mais interessantes do presente panorama musical nacional. Este grupo de hip hop que produz instrumentais e recorre a samples, tem claras influências da soul e do jazz. Em simultâneo, Sam The Kid lançou um canal com base digital designado TV Chelas.

Por tudo isto, Samuel, os nossos parabéns!

 


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