Núcleo dos Combatentes da Batalha

Notícias dos Combatentes

Apoio psiquiátrico aos novos combatentes. E aos veteranos?

Chegou-nos ao conhecimento uma reportagem do “Correio da Manhã”, publicada no dia 13 de janeiro pretérito, parte da qual aborda o tema do stress a que os militares estão sujeitos, no exercício da principal atividade para que são preparados: o combate contra forças inimigas.

A reportagem é feita no Hospital das Forças Armadas (HFAR-Lisboa), contendo ainda excertos de uma entrevista à sua diretora, a Brigadeiro-General médica Regina Mateus, versando, em particular, as valências psiquiátricas do hospital.

Depreende-se das suas palavras que esta valência é uma das mais importantes deste hospital e que foi recentemente melhorada com mais 12 camas, apesar das dificuldades em recursos humanos (apenas uma psiquiatra a tempo inteiro e vários outros a tempo parcial que equivalerão apenas a três a tempo inteiro); isto devido a “dificuldades orçamentais” que – dizemos nós – serão recorrentes a todos os serviços públicos do país, unidades de saúde do SNS incluídas, ao qual, pelos vistos, nem o HFAR escapa, apesar da especificidade do conjunto dos seus utentes.

Como quer que seja, interessa reter que o HFAR terá melhorado significativamente a sua componente psiquiátrica, tendo em vista um apoio condigno a prestar aos combatentes e famílias, levando em especial consideração as situações de stress pós traumático de guerra (SPTG) a que aqueles estão sujeitos e, por extensão, também o seu agregado familiar.

Naturalmente que nos congratulamos com a existência deste serviço de psiquiatria, cuja prioridade parece ser o atendimento personalizado aos combatentes, algo que foi olimpicamente ignorado, durante décadas, pelos poderes públicos, relativamente àqueles que (tal como as suas famílias), durante mais de 13 anos, se bateram em África.

Mas, apesar da informação na reportagem referir que este serviço será essencialmente para tratar “militares ao serviço, na reserva ou reforma e seus familiares, bem como elementos da GNR e PSP”, uma grande dúvida nos assalta: e os combatentes que não seguiram a carreira das armas, e que, no caso do ultramar, são a sua esmagadora maioria? Também têm direito a algum tratamento psiquiátrico no HFAR ou não?

É que os sobreviventes já estarão todos na reforma e, apesar de, ao que sabemos, não haver qualquer estatística, pelo menos oficial, de quantos foram (são) vítimas de SPTG, estima-se que ultrapassarão os 200.000, e somos levados a acreditar nestes números, dada a percentagem de casos que têm aparecido neste núcleo (e noutros), ao longo dos últimos cerca de 14 anos em que aqui temos prestado serviço voluntário.

Infelizmente, tem sido norma dos poderes públicos, quase desde sempre, os seus responsáveis minimizarem este problema, que é real e nacional, e tem afetado muitos milhares de lares.

É que se nos afigura que o stress de que uma boa parte da sociedade hodierna parece padecer, e sem colocarmos em causa a sua gravidade, não será comparável com o SPTG e, por isso, duvidamos, até por conhecermos alguns casos, que o recurso generalizado ao SNS, para onde aqueles combatentes também têm sido encaminhados, não terá meios nem especificidades concretas capazes de os ajudar a ultrapassar os seus traumas.

Pela explanação da diretora do HFAR, ficamos com a ideia de que esta unidade sanitária será capaz de prestar esse imprescindível e nobre serviço aos militares afetados. Mas, voltamos a interrogar, onde se podem enquadrar as dezenas de milhares de combatentes que deixaram as fileiras castrenses, designadamente os que fizeram as guerras de África, que estão já no ocaso da vida e sofrem de SPTG?

O HFAR tem capacidade para os receber e tratar? Em que moldes? Há alguma lei que regule o seu acesso? É que a estes nunca foi concedido o ingresso no subsistema de saúde ADM/IASFA, para poderem recorrer aos hospitais militares, ao contrário dos que foram afetados por mazelas físicas durante o conflito, únicos a quem, até agora, foi feita essa justa reparação.

Será que ainda haverá alguma esperança para tantos daqueles “soldados da desfortuna”?


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