João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Ana é Capicua

Se procurarmos num dicionário o significado de capicua, o mais certo é encontrarmos uma definição mais ou menos semelhante a esta: conjunto de algarismos ou de letras que, podendo ler-se da esquerda para a direita ou da direita para esquerda, têm o mesmo valor ou representam a mesma palavra. Esta expressão resulta da junção dos termos cabeça e cauda. E foi este conceito que assumiu como pseudónimo a artista de hip-hop portuense, Ana Matos Fernandes. Doutorada em sociologia, mas principalmente observadora arguta do mundo que a rodeia, Ana Matos usa as palavras como poucos em Portugal para dizer o que lhe vai na alma. Mas, inversamente, deixa-se arrastar pela torrente de palavras que inunda todo o seu ser para encontrar um novo sentido para a realidade.

Dizer que se trata de hip-hop no feminino, é uma afirmação demasiado simplista. Porque a música de Capicua é profunda e está repleta de referências literárias. Também o como se diz contamina o que se diz: entre a palavra e o silêncio, intromete-se a musicalidade e o ritmo que se transforma em trabalho poético. E a poesia faz apelo a outros grandes criadores, sejam eles poetas ou prosadores, como sejam o checo Franz Kafka, o brasileiro Rubem Alves ou o português Reinaldo Ferreira, para apenas citar alguns. Onde tudo isto atinge maturidade e melhor expressão é no seu segundo álbum de originais, intitulado Sereia Louca, datado de 2014. Precisamente, este disco tem por mote uma frase retirada das Parábolas de Franz Kafka (as sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que o seu canto: o seu silêncio). O álbum é duplo porque obedece à sua divisão em duas partes: cabeça e cauda. Tal como o termo capicua resulta da junção de cabeça e cauda, também a sereia tem uma cabeça (de mulher) e uma cauda (de peixe). Recordamos que a referência principal às sereias é da Odisseia de Homero, obra onde se relata que Ulisses tapou os ouvidos dos seus marinheiros com cera para estes não enlouquecerem com o canto das sereias. Mas Kafka vai mais longe: o seu silêncio é sempre mais terrível, porque põe fim ao jogo da sedução. A sereia de Capicua quer deixar o seu corpo de peixe, tornar-se humana, nem que para isso tenha que sofrer. E deixar o mar, deixar de enfeitiçar, é cantar um sonho que acaba por atravessar a lírica de Sereia Louca e que tem a força emprestada pela personalidade de Ana Matos e dos seus convidados (Aline Frazão, Gisela João, D-One, Zé Nando Pimenta, entre outros).

A arte enquanto dimensão que integra o sofrimento e a dor, é a questão fulcral do álbum mais recente de Capicua, intitulado Madrepérola. Partindo de um texto do escritor Rubem Alves, extraído do seu livro Ostra Feliz não Faz Pérola, Capicua regressa ao tema do mar, das ilhas e das sereias. Isto para dizer que o ato criativo pode resultar de uma tragédia (pessoal ou coletiva), porque tal como afirma Nietzsche, a tragédia leva ao desejo de beleza, como uma espécie de sublimação da dor: na verdade, o conceito de sublimação foi introduzido por Freud, para definir uma forma de transformar determinados sentimentos em outros superiores. Capicua inspira-se nesse conceito para dizer-nos que para fazer pérola, a ostra precisa de um grão de areia, ainda que esse grão a faça sofrer.

Musicalmente, Madrepérola é um grande disco, mas vale principalmente pelas palavras. Para ajudar a construir a sua poesia, Capicua conta com um leque de convidados ilustres como Stereossauro, Camané, Ricardo Ribeiro, Lena d’Água, Mallu Magalhães, Pedro Lamares, Catarina Salinas ou a diva de rap basileiro Karol Conka. Madrepérola é, por todas as razões, candidato a um dos melhores discos do corrente ano.

 


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