José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (181)

Alguns mistérios que rodeiam a figura de Mestre Boytac (III)

Dois dos mestres dos finais do século XV e princípios do século XVI, ligados intimamente à Batalha, receberam honras excepcionais da parte do Poder Régio: Mateus Fernandes (e a família), a quem é concedida a invulgar homenagem póstuma de ser sepultado no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, em campa destacada logo à entrada da igreja e com visíveis legendas que ainda hoje perduram, e o seu genro Boytac que é armado cavaleiro da Casa do Rei não por feitos no campo de batalha, como era habitual, mas pelos serviços prestados na direcção das obras nas praças fortes portuguesas no norte de África, no território que é hoje do Reino de Marrocos. São dois factos que não constituem mistério, um deles com a prova à vista e o outro bem documentado. Um dos documentos guarda-o e mostra-o o Museu da Comunidade Concelhia da Batalha: a inscrição na pedra tumular do mestre, da sua desassossegada sepultura na Igreja de Santa Maria-a-Velha: “Sepultura de Mestre Boitaca, cavaleiro da Casa del Rei, nosso senhor, e mestre das obras do Reino. Faleceu a 6 de Dezembro de …”. Ilegível o ano pelos ferimentos que a pedra recebeu na destruição selvática do velho e primitivo templo da Batalha. O mesmo sucedeu à inscrição da sepultura de sua mulher, Isabel Henriques (Amriquez), filha de Mateus Fernandes e irmã dos mestres Mateus Fernandes, do mesmo nome do pai e que lhe sucedeu na direcção das obras da Batalha, Pero Henriques e Filipe Henriques. Mas na inscrição que lhe diz respeito ainda se pode ler a data do falecimento, cinco ou seis anos antes do marido: 23 de Abril de 1522.

A honra da ascensão ao grau de cavaleiro a Boytac é concedida pelo conde de Borba que em 1508, 1509 e 1510 era governador de Arzila e confirmada pelo rei D. Manuel I em 1511.

Sendo Mestre das Obras do Reino, Boytac viajou frequentemente por Portugal e pelo norte de África, como já vimos, e também teria ido à Madeira. Sabe-se que dirigiu obras no Mosteiro dos Jerónimos, que fez a Igreja de Jesus de Setúbal, que trabalhou em Coimbra e noutros pontos do País.

E na Batalha?

Obra comprovadamente dela na nossa Vila é o belíssimo pórtico da nossa igreja matriz, assinalada nas duas ombreiras pelo seu inconfundível b gótico. E teria sido também o arquitecto do templo, como crê o Professor Doutor Saul António Gomes?

Diz Sousa Viterbo no “Dicionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses” (1º volume):

“Depois da construção do mosteiro de Jesus de Setúbal, qual seria a obra em que se empregou Boytac? Seria a Batalha? Aí aparece efectivamente, em 1509, (lembro que o pórtico da igreja matriz batalhense só pode ter sido feito muito depois de 1514, data do início da construção do templo), segundo um documento de que se lembra o cardeal patriarca (Cardeal Saraiva, D. Frei Francisco de São Luís). Aí tinha a sua residência; aí possuía propriedades, conforme vimos. Os documentos, porém, designam-no apenas por mestre, o que dá a entender que ele exercia ou uma especialidade ou um lugar secundário. Na lista dos mestres da obra não pode ser intercalado. Há quem diga que ele fôra o primitivo arquitecto da igreja e mosteiro de Belém, mas não descobrimos prova irrefutável que o demonstre. O que se sabe é que ele é quem dirigia a obra por 1514, segundo se vê pelo caderno das despesas da obra que se conserva no Arquivo Nacional, sendo para sentir que se tenham extraviado os cadernos anteriores, que nos ajudariam a resolver definitivamente o problema. As obras, porém, estavam ainda num estado rudimentar, porque é em 1517 que elas tomam um grande desenvolvimento, sob o impulso principal de João de Castilho coadjuvado por outros empreiteiros”.

Por sua vez, diz o historiador Professor Saul António Gomes no livro, precioso estudo sobre o Mosteiro da Batalha, “Vésperas Batalhinas”:

“(…) Em 1500, Boytac inicia trabalhos em Santa Maria de Belóm (o que hoje está assente).

“Em 1507 é chamado à reconstrução de Santa Cruz de Coimbra, com o apoio régio, como refere Frei Timótio dos Mártires. Permanecerá ligado a elas até 1513.

“Em 1509, segundo Fr. Francisco de São Luís (Cardeal Saraiva), aparece na Batalha, porventura já com o estatuto de morador. Em 1512 era-o de facto e já então casado com Isabel Henriques, filha de Mateus Fernandes I.

“Trabalhou em Coimbra, em obras municipais, por 1510. Nesse ano encontramo-lo ainda em Arzila, sendo armado cavaleiro pelo conde Borba, privilégio confirmado por D. Manuel em 5 de Janeiro de 1511. Aparecerá de novo na Batalha, porventura, no início de 1514. Em Março desse ano estava ainda à frente das obras dos Jerónimos. Também em 25 de Maio de 1514 partiu para o Norte de África e no dia 1 de Agosto de 1515 laborava nas proximidades de Mamora. Sabe-se que o Venturoso lhe aumentaria, entretanto, a tença de oito para doze mil reais (30.Abril.1515). Em 1516 foi substituído na direcção das obras de Belém.

“Nesta fase, Boytac parece sedentarizar-se na Batalha. De facto em 26 de Dezembro de 1515 surge como confrade examinador das contas do Hospital de Santa Maria da Vitória, o mesmo sucedendo um ano depois (26.XII.1516) (…) Entre a festa do Corpo de Deus de 1519 (Junho) e a de 1520 (Junho), Boytac assumiu a liderança da confraria como juiz (…)”.

Uma coisa espantosa é a mobilidade da gente naqueles séculos. Não obstante os deficientes transportes e as deficientes vias, os mestres, aliás como o s soberanos, deslocavam-se frequentemente por todo o País e o Mar também não era obstáculo, quer nas comunicações entre o norte, o centro e o sul de Portugal, quer nas idas ao norte da África.

Reproduzo as legendas das pedras tumulares do mestre Boytac e da sua mulher Isabel Henriques.


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