José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (180)

Alguns mistérios que rodeiam a figura de Mestre Boytac (II)

Como disse no número anterior, o que se apurou, até hoje, sobre o nome de Mestre Boytac (Boitaca ou Boutaca) é o que ele deixou registado em diversas assinaturas nos documentos relacionados com as obras que executou ou nos da Confraria do Hospital de Santa Maria da Vitória (da Batalha) onde exerceu cargos entre 1515 e 1521, nomeadamente o de juiz da Confraria, instituição que, lembro, datava de 1427 e fôra fundada com o Hospital por el-Rei D. João I: apenas Boytac, antecedido da designação das suas funções na arquitectura, Mestre.

No seu estudo, muito completo e bem aprofundado, publicado nas “Vésperas Batalhinas – Estudos de História e Arte” (Magno Edições, 1997), páginas 167 a 192, o Professor Doutor Saul António Gomes escreveu: “… Que sabemos do percurso biográfico de Boytac? Ignoramos a data do seu nascimento e conjecturamos a da sua morte em 1528, a acreditar em Frei Francisco de S. Luís (o Cardeal Saraiva). Do seu nome apenas podemos garantir a assinatura do seu próprio punho, sempre “Boytac”, como vimos, antecedido de “Mestre” ou “Maître”, sem qualquer outra indicação do nome próprio, apelido ou aposto. Ignoramos, aliás, se Boytac é nome de baptismo, se apelido. Cremos, contudo, que não parece ser indicativo geográfico mas antes simples étimo antroponímico”.

“Os tabeliães e outros contemporâneos, tinham, aliás, dificuldade em grafar esse nome original que ouviam pronunciar, recorrendo a diferentes soluções e formas ortográficas, todas elas procurando respeitar a pronúncia de tal estrangeirismo. Encontramos, assim, as formas Butaca, Buytaca, Botaca, Boutaca, Boitaca e, até, Moutaca (…)”.

A possibilidade do apelido Boytac ter tido origem numa povoação nos arredores da Batalha, onde hoje está a Ponte designada por Ponta da Boitaca ou Boutaca, está posta de parte. O local foi sempre terreno de culturas agrícolas. O próprio Boytac, proprietário de bastantes jeiras de terra, sobretudo nas Alcanadas, poderia ter tido uma propriedade naquele sítio, ele ou alguém seu descendente, como crê o Professor Saul Gomes, sítio designado por “da Boutaca” exactamente por ter pertencido a esta família.

Como se sabe, a ponte, que eu suponho ser única no nosso País, sobretudo pelo complemento das casas dos portageiros nos dois extremos mas também pela elegância da construção com o tabuleiro assente em 6 belos arcos neo-góticos, monumento que deve ser rigorosamente conservado e inclusivamente aproveitado para manifestações culturais e acções turísticas, só foi construída nos anos 60 do século XIX, mais de trezentos e trinta anos depois da morte do Mestre Boytac.

É curioso referir que tendo o arquitecto Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque, grande figura portuguesa da primeira metade do século XIX e restaurador do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, que salvou da ruina, sugerido a aproximação da estrada real da Vila da Batalha, sugeriu também, a construção duma ponte, imprescindível dada a natureza do terreno, no sítio da Boutaca.

Escreveu Luís Mouzinho de Albuquerque na sua “Memória Inédita Acerca do Edifício Monumental da Batalha”, na última página: “… indiquei… a conveniência de alterar a directriz da estrada de Lisboa a Leiria, entre os Carvalhos e a Canoeira, dirigindo-a por S. Jorge e pelo sítio da Boutaca em vez da Calvaria, por onde ela se dirige actualmente. Aconselhei a construção de uma ponte sobre o ribeiro da Botaca (ribeiro da Calvaria) ponto este que dista apenas uma oitava de légua do monumento da Batalha. Aprovada esta indicação, que eu contava levar a efeito, quando encarregado das estradas do reino, e que seria tanto mais fácil quanto nas ruinas não nobres da Batalha existem materiais sobejos para esta obra, tencionava eu derivar desta estrada geral uma particular que se dirigisse ao monumento, que assim ficaria com uma acesso fácil e cómodo, conduzindo-se com esta última obra os trabalhos acessórios que todos são indispensáveis para tirar o aspecto de abandono, para conservar a nitidez e beleza próprias ao mais belo monumento de arquitectura do nosso país, e a um dos mais acabados e perfeitos neste género que possui a Europa”.

Tendo deixado o cargo de director das obras do Mosteiro em 1843 e falecido em 1846, em 27 de Dezembro desse ano, na sequela de ferimentos que sofreu em Torres Vedras, durante uma das batalhas que se seguiram à revolta da Maria da Fonte, não pôde concretizar este seu projecto que só nos anos 60 do seu século teve execução, aproveitando-se os materiais do claustro de D. João III, destruído pelos invasores napoleónicos, para levar avante a construção da ponte. Era, então, director das obras do Mosteiro Lucas José dos Santos Pereira, outro grande nome da arquitectura portuguesa.

Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque está sepultado, em campa difícil de descortinar, na Igreja de S. Pedro de Torres Vedras. Seria, como seu neto, um dos poucos vultos da nossa História dignos de sepultura no Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque e Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque prestaram, desinteressadamente, os mais relevantes serviços a Portugal e ambos, pode bem dizer-se, foram vítimas dos desacertos do seu tempo, mortos prematuramente em actos de violência, estando a segunda destas tragédias ainda por explicar.

Se Deus quiser ainda voltarei a Boytac para referir alguns aspectos da sua obra, que se estendeu pelo País e chegou às praças fortes que Portugal nos séculos XV e XVI detinha em Marrocos, o Algarve de Além Mar.


NESTA SECÇÃO

Destino de alguns valores do Mosteiro de Santa Maria da Vitória

Universalidade de Portugal Não sei se Portugal pode cumprir outra missão, servir ou...

Exposição liga Batalha aos principados romenos

Está patente no mosteiro uma exposição intitulada “Os principados romenos no tempo da constr...

Infante D. Henrique, Imperador de novos mares e de novos céus

Infante D. Henrique   “Talant de bien faire”   Tive a vocação do bem.   ...