João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

Alcaide e a arte do tenor

O tenor, a voz principal de uma composição poética para ser cantada e normalmente a voz mais aguda, respeita o estilo erudito e possui uma grande projeção vocal. Não é forçosamente um cantor de ópera, isto é, pode não ser apenas talhado para o género dramático. Normalmente é um cantor lírico, ou seja, canta poesia feita para ser musicada ao estilo erudito e, portanto, insere-se no âmbito da música clássica. A qual, para além da ópera, possui diversos géneros e subgéneros de canto, tal como a cantata ou a serenada própria para ser interpretada por um tenor.

A partir do período barroco, o canto lírico tomou a forma profana e adquiriu um outro estatuto que até então não tinha: popularizou-se, começou a ser trauteado por uma população que começou a ir ao teatro e, mais tarde, com a chamada ópera italiana, tornou-se mesmo um fenómeno de massas.

Portugal teve um tenor que, para além de cantor de ópera, foi um grande intérprete de música lírica ligeira. O seu reportório inclui árias de óperas famosas, como La Traviata ou La Bohème, mas também abrange outra música como a banda sonora do filme Bocage, de Leitão de Barros. Esse tenor foi Tomaz Alcaide que viveu entre os anos de 1901 e 1967. Considerado muito justamente como um dos maiores tenores do século XX, a sua importância só é comparável à de Tito Schipa, outro grande tenor que foi seu contemporâneo. Mesmo para aqueles que não são amantes de ópera, ao escutarem canções como o Amor é Cego e Vê ou Gosto de Ti, percebem imediatamente que estamos perante um intérprete de dimensão fora do comum.

Tomaz Alcaide, após cantar em algumas festas entre amigos, estreou-se artisticamente no teatro de São Carlos. E, em 1925, partiu para Itália para receber lições do professor Ferdinando Ferrara. Nesse mesmo ano apresentou-se ao público, em Milão, no teatro Carcano e, nos anos seguintes, cantou em inúmeros palcos italianos, culminado estas apresentações com a sua estreia no Scala de Milão, em 1930. Granjeou tal êxito que esteve naquele teatro durante três anos consecutivos, onde interpretou o libreto Preciosas Ridículas, de Molière. A sua carreira prosseguiu, sempre com assinalável sucesso, nos palcos do mundo inteiro: Roma, Génova, Paris, Chicago, Nova Iorque. Foram algumas cidades que lhe deram renome mundial e do seu vasto reportório deve destacar-se alguma da maior ópera que jamais foi escrita, como por exemplo Fausto, Rigoletto ou O Barbeiro de Sevilha.

No auge da sua carreira participou na banda sonora do filme Bocage, de Leitão de Barros, realizado em 1936. Isto quando ainda estava a viver em Itália, mas com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, regressou a Portugal. Demorou-se entre nós pouco tempo, porque logo partiu para a América do Sul para atuar em diversos palcos, na Argentina e no Brasil. Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo puderam assistir às suas prestações ao vivo e, a partir dali, encetou uma importante digressão pela América do Norte. Talvez por ter levado ao limite a sua arte, foi acometido pela doença e teve de regressar a Portugal em 1948. Nesse mesmo ano, dava por terminada a sua carreira.

Dez anos mais tarde, era encarregado do Serviço de Intercâmbio da Emissora Nacional e, em 1961, escrevia a sua biografia: Um Cantor no Palco e na Vida. Depois de ter-se aposentado da Emissora Nacional, esteve à frente da Escola de Canto do Teatro da Trindade, em Lisboa. E ainda viveu o suficiente para presenciar o seu sonho de sempre: a constituição da Companhia Portuguesa de Ópera, da qual foi encenador.

Faleceu em 1967, mas, no ano seguinte, era instituído um importante prémio com o seu nome, destinado a laurear o melhor cantor de ópera de cada temporada. Felizmente, a sua memória não foi esquecida, como atestam várias artérias de cidades e ruas que receberam o seu nome.


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