José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (215)

Alberto Sardinha, uma das maiores figuras da cultura em Portugal

Círio

 

Caminho

a descontar pecados

em cada passo,

em busca do santo da minha devoção,

mas há pecados sem remissão

e não encontro a ermida,

ardendo o círio em vão.

 

Caminho.

Só a penitência,

nem sempre voluntária,

vem dar sentido à peregrinação.

 

 

O Dr. José Alberto Sardinha é um dos raros etnomusicólogos portugueses e, indiscutivelmente, o maior da actualidade.

Com investigação aturada, pode dizer-se que por todo o País, dela deu conta em diversas obras, que tem vindo a publicar há decénios, todas volumosas e significativamente ilustradas.

Além dos volumes, vários com centenas de páginas como é o caso de “Tradições Musicais da Estremadura”, com seiscentas e trinta e sete, reuniu em CDs parte substancial das duas recolhas como é o caso dos 6 CDs “Portugal Raízes Musicais”, editados pelo “Jornal de notícias” do Porto, ou os três discos da Antologia Nacional, “Recolhas Musicais da Tradição Oral” acompanhados da respectiva análise etnográfico-musical e “Idanha-a-Nova – Toques e Cantares da Vila”, um CD editado pela Emi-Valentim de Carvalho.

Mas todas as suas obras vêm acompanhadas por gravações que, no conjunto, nos proporcionam sons seculares da maior parte do nosso País, muitos que se vão apagando dia a dia.

Além das obras já citadas, o Dr. José Alberto Sardinha publicou “A Viola Campaniça – O Outro Alentejo”, “Braga na Tradição Musical – A Rusga de São Vicente”, As Tunas do Marão”, “As Origens do Fado” e “Danças Populares no Corpus Christi de Penafiel” que é um estudo, que julgo único, sobre as manifestações populares que integravam as procissões do Corpo de Cristo em todo o País. Embora pareça estranho no nosso tempo, o Povo, organizado em corporações de ofícios, dançava nestes actos religiosos. Havia o baile dos pedreiros, dos ferreiros, das floreiras, dos pauzinhos, dos sapateiros, dos velhos, dos turcos, este uma verdadeira representação da luta entre os infiéis (turcos) e os cristãos. (Mais estranho e curioso é que de Leiria se deslocou a Lisboa, em 1602, uma “chacota”, que designava tanto o conjunto como a dança, para participar na procissão organizada pelos Jesuítas).

Em constante actividade, investigando, proferindo palestras e continuando a preparar obras que sairão em breve, entre elas uma dedicada aos acordeões, concertinas e harmónios na Estremadura, o Dr. Alberto Sardinha assumiu também funções como a de coordenador do ciclo “Sons da Tradição” da EXPO 98, tendo então realizado um notabilíssimo trabalho.

É de referir, sublinhando, que muitos músicos como Amélia Muge ou Né Ladeiras usaram as suas gravações como base de trabalho.

Para nós, estremenhos, é obra para frequente consulta as “Tradições Musicais da Estremadura”, dedicando à nossa região e muito particularmente à Batalha inúmeras páginas. Durante algum tempo tive a honra de o acompanhar, dele recebendo proveitosas lições.

Nas suas recolhas completa-as e ilustra-as com as fotografias dos informadores e a sua identificação.

Já bastantes anos depois desta publicação, voltou à Batalha onde, em 1 de Maio de 2012, em casa de D. Júlia Silva Vieira Frazão, no Casal do Alho, gravou rimances e diversas cantigas da tradição local, aproveitando também para gravar Joaquim Ruivo e as concertinas e harmónios do Rosas do Lena.

Nesse mesmo dia esteve em casa do Professor José Ribeiro de Sousa, na Maceira, que entrevistou (creio que foi a última entrevista concedida pelo autor desse outro monumento da etno-musicolgia portuguesa). Desse encontro reproduz-se a fotografia que ilustra este apontamento.

Foi um encontro entre duas grandes figuras da nossa Cultura. A obra do Professor Ribeiro de Sousa “Cancioneiro de Entre Mar e Serra da Alta Estremadura”, mil duzentas e cinquenta páginas sobre a arte, a inventiva e a sensibilidade populares, deve ser assinalada como uma das mais importantes publicadas não só na região como no País. Porque é justo registar, também, a excelente coordenação editorial foi do Maestro Joaquim Vicente Narciso.

Mas voltando ao Dr. José Alberto Sardinha, é inacreditável como o notabilíssimo etno-musicólogo não teve ainda o reconhecimento do Poder, passados tantos anos do início da sua brilhante e invulgar carreira, preservando exaustivamente e divulgando um sector importantíssimo da nossa Cultura.

 

Um País em decadência

 

Custou-me a acreditar, mas houve quem sugerisse a destruição do Padrão dos Descobrimentos, em Belém.

No fundo, entende-se a atitude: é preciso desmotivar o Povo Português, enegrecendo-lhe o passado, para certos sectores minoritários chegarem ao Poder ou, pelo menos, poderem influenciá-lo.

Um Povo desmemoriado ou envergonhado pelos actos dos seus antepassados é facilmente dominado. E é isso que se pretende.

Escusado é dizer que se na nossa História há actos reprováveis, muito que se podem entender à luz de outras épocas, a maior parte são lições de coragem, pioneirismo, de sacrifício, de engenho inventivo.

E são estes, que o Padrão dos Descobrimentos recorda e enaltece.

 


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