José Travaços Santos

Apontamentos sobre a História da Batalha (183)

Afonso Domingues e Huguet e alguns dos seus enigmas (II)

Embora ainda não tendo sido descoberto documento que o confirme há a hipótese, aliás bem alicerçada, do Mestre Huguet ser natural do leste de Espanha, mais exactamente da Catalunha.

Conforme escreveu em 1535 Cristóvão Acenheiro: “E mandou fazer o Mosteiro da Batalha, onde venceu o Rei de Castela; e chama-se Santa Maria da Vitória, para si e para seus filhos; e parece obra de Anjos que se fez em sete anos, que é obra para quarenta, e teve esta astúcia. Mandou el-Rei notificar pelas partes de Espanha que tinha obra para fazer de pedraria, que todos os Mestres que viessem que lhe daria sete anos que fazer, e lhe pagaria a vinda e a ida de suas Terras; e a esta notificação vieram muitos Mestres de pedraria, e grandes oficiais, e o fizeram segundo dito é…”.

Reproduzi este texto das “Vésperas Batalhinas”, do Professor Doutor Saul António Gomes, livro que esgota a maior parte dos temas sobre o nosso Mosteiro, onde o autor adianta: “A crer nesta importante fonte, D. João I satisfazia a sua exigência estética com a mão-de-obra que laborava em terras hispânicas, onde, aliás, como vimos já pululavam gentes doutras nações centro e norte-europeias. Na Península, creio, recrutou Huguet cujos horizontes levantinos se denunciam na obra, como tem provado sagazmente José Custódio da Silva. Esta ideia da origem hispânica dos mestres-de-obras batalhinos pode acentuar-se com aqueloutra versão registada por Fr. Luís de Sousa, segundo a qual a intenção do mestre de Avis era realizar a maior obra do género em terras hispânicas, a fim de afirmar o seu estatuto real face aos demais reinos de Castela, Navarra e Aragão (…)”.

Cerca de 14 anos depois, o professor universitário francês Jean-Marie Guillouet, noutro estudo notável sobre o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, “O portal de Santa Maria da Vitória – Batalha – e a arte europeia do seu tempo”, pronuncia-se no mesmo sentido da proveniência peninsular-levantiva do Mestre Huguet: “As origens das disposições arquitecturais da Batalha foram objecto de repetido questionamento por parte da investigação portuguesa, que se tem, desde há muito tempo, confrontado com o silêncio da documentação no que diz respeito ao misterioso Mestre Huguet. Faz dele sucessivamente um Flamengo, um Inglês, um Irlandês de origem flamenga, ou um Catalão. Estes debates podem ser hoje resolvidos. Com efeito, o portal de Santa Maria da Vitória, tanto nas suas disposições de conjunto como na sintaxe utilizada, inscreve-se plenamente na tradição arquitectural catalã e aragonesa. Em Barcelona, as fachadas de Santa Maria del Mar e de Santa Maria del Pi apresentam dispositivos semelhantes, em que o tramo central faz uma ligeira saliência sobre a parede de fundo ao nível do portal e é enquadrado por dois tramos laterais desprovidos de portal, mas atravessados por uma lanceta e cobertos por varanda, enquanto a porta central se desenha diante de uma série de arcaturas cegas muito esguias, que formam uma rede densa e plástica…”.

E depois de citar uma série de templos catalães e também castelhanos e leoneses, aponta que “é sobretudo o abobadamento muito particular utilizado na casa do capítulo e na capela do fundador da instituição portuguesa que religa, sem ambiguidade, o monumento a modelos catalães, valencianos e aragoneses…”.

“(…) Todas estas observações (que é impossível transcrever na íntegra para esta página de jornal, servindo apenas para espicaçar a curiosidade dos leitores) permitem propor, agora, a hipótese de uma proveniência catalã relativamente ao Mestre Huguet, que teria, pois, chegado à direcção do estaleiro batalhense acompanhado por escultores vindos do Levante peninsular ou que tinham trabalhado anteriormente na Catalunha (…).

Uma certeza temos hoje: que o Mestre Huguet, falecido em 1438, foi sepultado, bem como outros notabilíssimos arquitectos da Batalha, entre eles Boytac, na igreja de Santa Maria-a-Velha, panteão dos Mestres de Santa Maria da Vitória, e que estupidamente destruído o histórico templo desapareceram as ossadas que tinha á sua guarda, perdendo-se a possibilidade de hoje, à luz dos avanços da ciência, se poder identificar origens genéticas e possíveis parentescos e descendências.

 

Huguet (2º arquitecto da Batalha)

De onde vim? A História esconde a minha nacionalidade e a minha própria identidade é nebulosa. Com outros concebi a obra mais assombrosa do reino a que me acolhi. Fui eu que ergui a prodigiosa abóbada e, a prová-lo, nela deixei as nervuras com que assinalei tudo o que construí. Se sou estrangeiro, pelo país onde nasci, morri português porque foi Portugal que escolhi e, durante toda uma vida, de corpo inteiro servi.

 


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