João Pedro Matos

Tesouros da Música Portuguesa

O sexto sentido da Sétima Legião

Se outra razão não houvesse, a Sétima Legião teria sempre um lugar entre os imortais da música portuguesa, por causa de algumas canções que deu à luz, entre as quais se encontram Sete Mares, Tão Só e Por Quem Não Esqueci. Constituída por Rodrigo Leão, Pedro Oliveira, Gabriel Gomes, Paulo Marinho, Ricardo Camacho, Francisco Menezes, Paulo Abelho e Nuno Cruz, a Sétima Legião soube aproveitar a sinergia de tão numeroso grupo para esmerar-se no que resultava da gravação em disco e que ficava cada vez mais apurado, de álbum para álbum. Assim, na sua génese encontramos o single Glória, datado de 1982, o qual se aproxima das sonoridades de Manchester e de projetos lendários como a Joy Division ou os Durutti Column. Comparações à parte, rapidamente torna-se igual a si própria ao incorporar elementos da música tradicional portuguesa e amiúde recorrendo ao bombo, ao adufe e à gaita de foles. Isso mesmo verifica-se no álbum A Um Deus Desconhecido de 1984 e, três anos mais tarde, em Mar de Outubro, neste último disco valendo-se também da concertina de Gabriel Gomes.

O grande sucesso comercial da banda chegaria em 1989 com a edição do longa duração De Um Tempo Ausente. Porto Santo, Navegar e, principalmente, Por Quem Não Esqueci foram tocadas nas rádios até à exaustão e contribuíram para que o grupo ganhasse toda uma nova legião de fãs. À margem da divulgação na rádio e das tabelas de vendas, ficou Ascensão, tema belíssimo onde pontificavam as vozes de Teresa Salgueiro e de Francisco Ribeiro.

No ano de 1992 chega aos escaparates o sucessor de Um Tempo Ausente. Sem ter a mesma ambição de escalar as tabelas de vendas, O Fogo continha motivos suficientes para chamar a atenção dos amantes da música moderna portuguesa e esses motivos chamavam-se A Norte do Mundo (com direito a teledisco), Os Dias do Futuro, A Voz do Deserto e Tão Só.       

Depois, foi necessário esperar sete anos para aparecer um novo disco, mas valeria a pena a espera. Receberia o nome de Sexto Sentido e seria o derradeiro trabalho de originais da Sétima Legião, que encerraria a sua carreira com chave de ouro. Sexto Sentido abriu pistas para o novo milénio que então se aproximava, usando programações de computador, sintetizadores e samplers (amostras de sons) para dar uma nova roupagem a gravações de canções do Portugal profundo, recolhas muitas delas efetuadas pelo Prof. Ernesto Veiga de Oliveira. Entres os samplers contavam-se A Ceifa de Idanha, A Ceifa de São Pedro do Sul, a Lavra de Évora, A Ceifa de Vimioso, A Lavra de Torres Vedras e ainda gravações de música tradicional da Madeira.

Recebido friamente pela crítica, que talvez esperasse um novo álbum de rock, Sexto Sentido conseguiu a proeza de vender mais no estrangeiro do que dentro do país. Não foi só pela tecnologia utilizada. O último disco da Sétima Legião é um tratado de música popular portuguesa vestido com roupagem futurista, e trata esse manancial de tradição com imenso respeito, dir-se-ia até com veneração. Porque este disco sempre esteve na origem da autenticidade do grupo, não admira que as vozes resultantes de recolhas de música popular substituam o vocalista da banda na maior parte das canções. É o fim do caminho para este coletivo que seguiu sempre um trajeto singular, construído entre a gravidade das bandas de Manchester e a euforia das terras de Trás-os-Montes, como se ambas estivessem próximas. Sexto Sentido marca o término desse caminho. Aqui a modernidade abraça toda a tradição de um país, o país de uma banda que começou, naturalmente, na Fundação Atlântica.

 

                                                                                                               


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